Ozempic matou o gay urso?

Semaglutida e a transformação do corpo gay desejável.

João Paulo Gugliotti.

Muitos de meus colaboradores na incursão etnográfica em San Francisco repetem: “Internet killed the gay bar” (a internet matou o bar gay), o tipo de estabelecimento comercial mais popular para homossexuais norte-americanos. De qualquer forma, talvez seja mais acurado dizer que a internet substituiu parcialmente a cultura dos bares, que também perdeu centralidade devido à ascensão de ideais higienistas que desestimulam o consumo de álcool e prescrevem atividades físicas, o que é visível na inabalável importância das academias na sociabilidade gay local.

– Richard Miskolci. In.: Negociando visibilidades: segredo e desejo em relações homoeróticas masculinas criadas por mídias digitais. Bagoas, v. 8, n. 11, p. 58, 2014.

 

A internet matou o bar gay” – essa frase extraída da etnografia digital de Richard Miskolci sempre ficou em minha cabeça por alguma razão. Ela apontava, ao contrário dos mais céticos com a internet e aos apps, para uma transformação maior nas tecnologias da informação e comunicação e na forma como comunidades e grupos historicamente alijados do espaço público encontravam novas possibilidades de socializar e encontrar parceiros para relações amorosas ou eróticas, ainda que tencionadas por imperativos midiáticos que se formavam.

No verão de 2026, durante a Bear Week de Provincetown, uma mudança aparentemente banal chamou a atenção dos organizadores. Durante anos, as camisetas distribuídas aos participantes saíam sobretudo nos tamanhos 2X, 3X e 4X. Naquela temporada, aumentara a procura por peças pequenas, médias e grandes. A festa, no entanto, não estava esvaziando. Ao contrário, segundo seus organizadores, o número de inscrições continuava crescendo. Eram as cinturas que pareciam diminuir. Pouco depois, a mudança tornou-se notícia sob uma pergunta que condensava, com a eficiência própria das manchetes, uma inquietação mais ampla: o que acontece com os ursos quando os ursos começam a tomar Ozempic?

A pergunta parece cômica até que se perceba o que está em jogo. Ozempic tornou-se um nome genérico, na cultura popular, para uma família de intervenções farmacológicas que fizeram do peso corporal algo aparentemente mais modificável do que fora em qualquer momento recente. A semaglutida e a tirzepatida ingressaram no cotidiano acompanhadas por uma imaginação social muito maior do que aquela contida em suas indicações clínicas: celebridades emagreceram, fotografias de “antes e depois” proliferaram, clínicas privadas passaram a oferecer tratamentos, perfis de redes sociais começaram a comentar rostos, cinturas e clavículas como sinais de uma nova era estética. Já em 2023, Jia Tolentino observava no The New Yorker que a chegada dos agonistas de GLP-1 poderia ter conduzido a uma compreensão menos moralizante do peso e do metabolismo, mas parecia produzir, paradoxalmente, uma renovada obsessão cultural pela magreza.

Entre homens gays, porém, essa história não começa com Ozempic. Tampouco pode ser descrita satisfatoriamente como a substituição repentina de um ideal de corpo grande por outro extremamente magro. Corpos desejáveis têm história, e a história dos corpos masculinos gays talvez mostre isso com particular nitidez. Aquilo que em determinado momento parece simplesmente belo, saudável, sexy ou masculino costuma resultar de uma longa sedimentação de epidemias, mercados, discursos médicos, tecnologias, imagens e classificações sociais. O corpo desejado nunca é apenas um corpo, é também uma espécie de arquivo com contexto histórico e social.

Richard Miskolci demonstrou isso ao investigar homens que buscavam parceiros do mesmo sexo em São Paulo e que haviam chegado à vida adulta sob o impacto da epidemia de aids. Entre seus interlocutores, masculinidade, juventude, musculatura, posição sexual, classe social, bairro de residência e aparência de heterossexualidade formavam uma hierarquia do desejável. No esquema de “regime erótico” formulado pelo sociólogo, o polo mais valorizado reunia justamente juventude, masculinidade, posição ativa, corpo musculoso ou atlético e um estilo de vida percebido como saudável; gordura, envelhecimento, feminilidade e outros atributos ocupavam posições distintas nessa economia do desejo. O erótico aparecia, assim, como uma construção histórica e social, e não como mera expressão transparente de preferências individuais – se é que um dia elas foram estritamente pessoais.

A epidemia de aids ajuda a compreender como essa hierarquia corporal adquiriu parte de sua força. Durante os anos em que a aids foi publicamente representada por rostos emagrecidos, perda de peso, adoecimento e morte, o corpo masculino musculoso ganhou um significado que excedia a estética. Miskolci associa a ascensão do sarado à formação de uma “geração saúde” para a qual músculos, juventude e boa forma forneciam sinais visíveis de vitalidade e, por contraste, de distância em relação ao espectro da doença. O corpo trabalhado na academia podia significar beleza, mas também saúde aparente, masculinidade e certa promessa de segurança. A própria palavra sarado guardava essa ambiguidade semântica particularmente brasileira: designava o homem musculoso enquanto conservava, em sua raiz, a ideia daquele que está são, curado.

Esse processo ocorreu no interior de uma transformação maior. Larissa Pelúcio e Richard Miskolci descreveram a emergência de um “dispositivo da aids” capaz de reinscrever sexualidades dissidentes em linguagens de risco, prevenção e normalização justamente quando a homossexualidade deixava para trás antigas classificações psiquiátricas. Anos depois, a investigação de João Paulo Gugliotti e Miskolci sobre a busca de parceiros após a aids voltou a mostrar as continuidades desse processo no campo do desejo; e estudos posteriores de João Paulo Gugliotti acerca da relação entre aids, homossexualidade e conhecimento gerontológico identificaram movimento semelhante, no qual o estigma podia migrar da patologia mental para a classificação epidemiológica do risco. A despatologização, nesse sentido, não produziu um território simplesmente exterior à medicina. Mudou a gramática pela qual determinados corpos e práticas eram problematizados.

A esse respeito, a história dos ursos se torna particularmente reveladora, porque ela nunca se ajustou perfeitamente à narrativa de um único corpo gay ideal, mas múltiplos ideais convergentes com demandas tecnológicas e informacionais em plataformas distintas.

A cultura bear ganhou forma entre o final dos anos 1970 e os anos 1980 em torno de homens maiores, peludos e frequentemente mais velhos, muitos dos quais não se reconheciam no corpo liso, jovem e de baixo percentual de gordura que circulava como signo privilegiado de beleza masculina gay. Com revistas, festas, clubes, códigos próprios e, mais tarde, circuitos internacionais, os ursos transformaram características frequentemente depreciadas em atributos eroticamente legíveis. Barriga, pelos, barba, volume corporal e idade podiam deixar de representar fracasso diante de um padrão e constituir precisamente aquilo que tornava alguém desejável.

Mas seria apressado transformar essa história numa oposição simples entre uma cultura gay superficial, devotada à magreza, e uma cultura bear inteiramente libertada dos padrões corporais. O urso não aboliu a masculinidade como valor; frequentemente a reorganizou como símbolo de corpos das classes médias e baixas, entre trabalhadores braçais ou “pais de família”, que incorporavam o oposto ao culto ao corpo das revistas de moda: era o corpo em seu estado bruto, rústico, um signo da masculinidade familiar, também descrito como “paizão”, ou daddy. A superfície lisa podia ser substituída pelos pelos, a cintura estreita pelo tórax ou pela barriga, a juventude pelo daddy, mas permaneciam em circulação signos de virilidade, tamanho, força, autoridade e desempenho sexual. A própria história interna da comunidade registra disputas envolvendo muscle bears, chubs, cubs, homens mais velhos, corpos muito gordos e diferentes expressões de gênero. A existência de um espaço constituído contra determinada exclusão não o torna imune à produção de novas fronteiras, tampouco a novos imperativos. Relatos de homens gordos que encontraram gordofobia dentro da própria cultura bear deixam essa contradição bastante evidente.

Talvez seja por isso que as canetas emagrecedoras produzam hoje algo mais complexo que uma simples adesão à magreza. Durante as primeiras décadas da internet, as tecnologias digitais transformaram o corpo em um conjunto de atributos pesquisáveis, medidos e comparáveis. Idade, altura, peso, constituição corporal, pelos, posição sexual e outros critérios passaram a integrar menus, perfis e mecanismos de busca. Miskolci mostrou como essa arquitetura digital tornava visível um mercado erótico e ensinava seus usuários a olhar para si próprios e para os outros segundo categorias cada vez mais explícitas. O corpo tornava-se, simultaneamente, objeto de apresentação, comparação e seleção.

O smartphone aprofundou esse processo. Twink, bear, otter, daddy, jock, muscle bear e tantas outras categorias passaram a funcionar como uma taxonomia popular do corpo e da sexualidade, atravessada pela pornografia, pelos aplicativos de encontros e pelas culturas de plataforma. A força dessas palavras está em sua prolífica economia e segmentação: idade, quantidade de pelos, proporção de gordura e músculos, performance de gênero e posição presumida dentro de determinada economia sexual podem ser condensadas em poucas sílabas. Um twink não descreve somente um homem jovem; evoca uma superfície corporal, um intervalo etário, uma gramática erótica e um lugar dentro de uma hierarquia de visibilidade. O mesmo ocorre com o urso.

O que mudou com Instagram, TikTok e a expansão da cultura fitness foi também a intensidade com que esses corpos passaram a circular como imagens de si. Academia, alimentação, depilação, suplementos, hormônios, cirurgias, fotografias, filtros e métricas compõem hoje um mesmo ambiente de aperfeiçoamento corporal. A fronteira entre aquilo que fazemos para sermos saudáveis e aquilo que fazemos para parecermos saudáveis tornou-se particularmente porosa.

Robert Crawford chamou de healthism, ainda em 1980, a tendência de localizar no indivíduo a responsabilidade pela produção da própria saúde. Nessa racionalidade, problemas coletivos e sociais podem ser convertidos em projetos pessoais de disciplina, autocontrole e aperfeiçoamento. Décadas depois, Adele Clarke e seus colaboradores empregariam o conceito de biomedicalização para descrever uma transformação adicional: a tecnociência médica deixava de se ocupar tão-somente da identificação e do tratamento da doença para participar crescentemente da transformação e otimização de corpos, capacidades e identidades.

Vista por essa lente, a caneta de semaglutida ocupa um lugar curioso na história da cultura corporal. Ela pertence ao consultório e à farmácia, mas também ao Instagram; ao tratamento de condições metabólicas e à fantasia de aperfeiçoamento; à medicina e ao mercado da aparência. Sua circulação introduz uma possibilidade nova dentro de uma moralidade antiga: se o peso pode ser farmacologicamente transformado, permanecer gordo corre o risco de passar a ser interpretado, novamente, como escolha, ou negligência. A tecnologia que poderia desmoralizar o metabolismo pode também fornecer um novo fundamento técnico para moralizá-lo.

O próprio corpo gay oferece resistência a uma interpretação demasiadamente simples dessa transformação. O ideal masculino que se consolidou em muitos circuitos gays depois da aids nunca foi exatamente o da extrema magreza que, em outros universos culturais, marcou sucessivas indústrias da moda e da dieta, como entre mulheres. Miskolci encontrou uma gradação bastante diferente: o magro podia ser preferível ao gordo, mas o corpo em forma, musculoso ou atlético ocupava uma posição superior. Juventude, musculatura e saúde aparente eram elementos de um mesmo conjunto.

Por isso, é possível que a era das canetas não produza entre homens gays simplesmente uma marcha coletiva em direção ao corpo cada vez menor. Ela pode estar reorganizando uma equação já existente entre gordura, músculo, juventude e masculinidade. A figura emergente talvez seja menos o homem extremamente magro do que o corpo de gordura reduzida, musculatura preservada, rosto jovem e aparência meticulosamente casual: um corpo no qual academia, farmacologia, dieta, dermatologia e imagem digital se tornam progressivamente difíceis de separar. Trata-se aqui de uma hipótese sociológica, não de uma conclusão epidemiológica. O ponto decisivo é que uma nova tecnologia entra em um regime erótico preexistente e passa a alterar seus termos.

Nesse sentido, a notícia vinda de Provincetown torna-se mais interessante do que a previsão de desaparecimento dos ursos. Em agosto de 2026, o Advocate ouviu organizadores, pesquisadores e integrantes da comunidade que contestaram justamente essa ideia. As camisetas podem ter diminuído de tamanho, mas a Bear Week continuou crescendo; homens que emagreceram continuaram a se identificar como bears; outros se perguntavam se ainda seriam reconhecidos como tais; e homens maiores percebiam mudanças no próprio valor dentro daquele mercado erótico. A questão já não era simplesmente quanto pesava um urso, mas quanto do urso reside no peso.

Esse talvez seja o aspecto sociologicamente mais fértil de toda a controvérsia. Uma identidade corporal parece estável enquanto as tecnologias que permitem modificar o corpo também permanecem relativamente estáveis. Quando essa infraestrutura muda, tornam-se visíveis as convenções que antes pareciam naturais. Se um homem pode perder vinte ou trinta quilos e continuar pertencendo à comunidade bear, então “urso” jamais foi apenas uma medida antropométrica. Se, ao contrário, determinada perda corporal altera sua posição no campo do desejo, revela-se que pertencimento e reconhecimento nunca estiveram completamente separados da matéria.

A história da homossexualidade masculina oferece muitos exemplos dessa interação entre matéria e significado. A aids fez da magreza involuntária um sinal aterrador de doença e contribuiu para investir o corpo musculoso de sentidos de saúde e vitalidade. A academia tornou a musculatura uma técnica cotidiana do eu, tendo o próprio Richard Miskolci, em sua etnografia, reconhecido que os bares gays, em antigos prédios, haviam se tornado academias de ginásticas – e era nelas, e não exatamente em bares tradicionais, que se dava a paquera e a busca amorosa/erótica. A pornografia organizou corpos segundo tipos reconhecíveis. Os sites e aplicativos converteram parte dessa tipologia em filtros de busca. As redes sociais fizeram do corpo uma imagem continuamente atualizável. Agora, as tecnologias incretínicas oferecem a possibilidade de intervir farmacologicamente em um dos atributos sobre os quais essas classificações se apoiam.

Talvez seja cedo, portanto, para perguntar se Ozempic está acabando com os ursos, embora isso já não me pareça produtivo, sociologicamente. A pergunta pressupõe que conhecemos de antemão aquilo que um urso é e que seu corpo permaneceu igual ao longo da história. Nenhuma das duas coisas é verdadeira.

Mais produtivo seria perguntar o que ocorre quando uma tecnologia médica adquire capacidade suficiente para interferir nos próprios sinais pelos quais grupos se reconhecem, se desejam e estabelecem suas diferenças. Nesse momento, uma caneta deixa de ser somente uma caneta. Ela ingressa na história das imagens do corpo, das classificações sexuais e das tecnologias de si.

Décadas atrás, diante do espectro da aids, ser sarado podia significar tornar visível a distância entre o próprio corpo e a doença. Hoje, diante de outra infraestrutura biomédica, saúde, beleza e autocontrole voltam a se aproximar, embora sob outras formas. Entre uma academia dos anos noventa frenética em exercícios e shakes nutritivos, um perfil do Grindr e uma caneta guardada na porta da geladeira há diferenças tecnológicas enormes. Sociologicamente, contudo, há entre eles uma continuidade incômoda: todos participam, em momentos históricos distintos, da produção daquilo que aprendemos a reconhecer como um corpo desejável.

A questão, portanto, talvez nunca tenha sido se os ursos estão emagrecendo, ou sendo extintos. A questão é quem — a medicina, o mercado, os aplicativos, as comunidades ou os próprios sujeitos — ganha, a cada época, o poder de dizer que corpo vale a pena desejar.



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Entre gurus e hereges