Educação sanitária, São Paulo, 1930ca.

O mais profundo é o útero: DOHaD, epigenética e o gênero da saúde pública no Brasil.


Este projeto investiga criticamente a forma como a ciência contemporânea tem produzido e disseminado explicações sobre as origens da saúde e da doença ao longo do curso da vida, com especial atenção ao papel atribuído à gestação e ao corpo materno. Nas últimas décadas, o paradigma conhecido como Developmental Origins of Health and Disease(DOHaD) consolidou-se como um dos principais referenciais biomédicos para compreender como exposições precoces — sobretudo intrauterinas — influenciam desfechos em saúde na infância, adolescência e vida adulta .

Embora esse campo tenha produzido avanços relevantes ao evidenciar a importância das condições iniciais da vida, ele também tem contribuído para uma reconfiguração do olhar sobre a maternidade, frequentemente posicionando as mulheres como principais — e, por vezes, únicas — responsáveis pelos riscos e destinos biológicos de suas crianças. Nesse contexto, o projeto propõe uma análise sociológica e histórica das formas pelas quais a figura materna é construída, mobilizada e responsabilizada tanto na produção científica quanto na esfera pública.

A pesquisa articula dois eixos empíricos principais. No primeiro, realiza-se uma revisão temática de estudos de coorte longitudinais conduzidos no Brasil, publicados entre 2010 e 2025, examinando como fatores como depressão perinatal, consumo de álcool e tabaco, uso de drogas, peso ao nascer e trabalho materno são associados a desfechos negativos em saúde da prole . No segundo eixo, analisa-se a cobertura da imprensa jornalística hegemônica — incluindo veículos como O Estado de S. Paulo, O Globo e Veja — com o objetivo de compreender como conceitos oriundos do DOHaD e da epigenética são traduzidos, simplificados e difundidos no debate público.

Ao combinar análise da literatura científica e da mídia, o projeto busca identificar continuidades, tensões e disputas na construção social da maternidade contemporânea. Em particular, examina-se como discursos biomédicos e epidemiológicos podem reforçar formas de “maternalismo científico”, isto é, uma tendência a individualizar condutas e a deslocar para o corpo gestante a responsabilidade por processos que são, em grande medida, socialmente determinados .

Ancorado em referenciais da sociologia, da antropologia e dos estudos de gênero, o estudo também propõe uma crítica aos limites epistemológicos e ético-políticos das abordagens baseadas no risco, especialmente quando estas desconsideram desigualdades estruturais de classe, raça, gênero e acesso a serviços de saúde. Ao fazê-lo, contribui para um debate ainda incipiente no Brasil sobre os vieses de gênero na Epidemiologia do Ciclo Vital e sobre a necessidade de abordagens intersetoriais, interseccionais e socialmente situadas nas políticas de saúde materno-infantil.

Mais do que questionar um campo científico específico, o projeto propõe refletir sobre como a ciência participa da produção de normas sociais, valores morais e regimes de responsabilização — e como esses processos incidem, de maneira desigual, sobre corpos, sujeitos e populações.

Alexander Hohenlohe Burr, 1867.

Nossa equipe.


João Paulo Gugliotti.

Pesquisador da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do BIOSS-Lab. Doutor em Sociologia (UFSCar). Visiting Scholar – Oxford (2016), Harvard (2019-20), MIT (2020), King’s College London (2023-24). Sua produção articula ciências sociais e saúde coletiva, com foco em HIV/AIDS, autoridade biomédica, mídia e regimes contemporâneos de risco. Publicou sua tese doutoral como “AIDS e envelhecimento homossexual: representações gerontológicas e a linguagem da patologia” – livro premiado pela ABEU (2025). Atua em redes internacionais e nacionais como assessor de agências de fomento e periódicos científicos.

Coordenador

Alicia Matijasevich.

Médica pela Universidad de la República (Uruguai), com especialização em Pediatria e Neonatologia, mestrado e doutorado em Epidemiologia pela UFPel. Realizou pós-doutorado na Universidade de Bristol (Reino Unido). É Professora Associada do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e docente colaboradora do PPG em Epidemiologia da UFPel. Atua em Saúde Coletiva, com ênfase em epidemiologia do ciclo vital, saúde materno-infantil e desigualdades em saúde. Lidera o grupo EpiGenVital (CNPq) e integra o Comitê Científico do NCPI.

Pesquisadora
Pesquisadora

Lilia Blima Schraiber.

Professora da Faculdade de Medicina da USP, com graduação em Medicina e formação em Medicina Preventiva (mestrado, doutorado e livre-docência) pela mesma instituição. Participou da criação e coordenação do Centro de Saúde Escola Samuel B. Pessoa e da coordenação do Programa de Pós-Graduação em Medicina Preventiva da USP. Desenvolve pesquisas nas áreas de gênero, violência e saúde, bem como na história das práticas médicas e de saúde pública. Editora científica da revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação e orientadora de pós-graduação desde a década de 1990.

Adriano De Lavor.

Pesquisadora

Paola Soledad Mosquera.

Nutricionista formada pela Universidad de Buenos Aires, com diploma revalidado pela USP, é doutora em Ciências (Saúde Pública) pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Realizou estágio de pesquisa no Departamento de Epidemiologia da Universidade de Michigan, com foco em análise de dados. Integra o grupo MINA-Brasil, voltado à saúde materno-infantil na Amazônia. Atualmente, é pós-doutoranda em Saúde Coletiva no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Jornalista

Doutor em Ciências pelo PPGICS (Icict/Fiocruz) e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, com especialização em Comunicação e Saúde pela ENSP/Fiocruz. É servidor da Fiocruz desde 2006, atuando no programa Radis – Comunicação e Saúde, onde foi editor. Integra o Grupo Temático de Comunicação e Saúde da ABRASCO e o Observatório Saúde na Mídia. Desenvolve pesquisas sobre comunicação, políticas públicas e visibilidade social em saúde, com foco em populações em situação de vulnerabilidade.