Entre gurus e hereges
A crise da crítica em uma academia dividida entre consagração e cancelamento.
João Paulo Gugliotti.
O caso de Jason Arday reacendeu uma discussão necessária, embora frequentemente conduzida em termos excessivamente belicosos, sobre os efeitos institucionais das políticas de recrutamento associadas à agenda de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Cambridge se beneficiou simbolicamente de sua trajetória e daquilo que ela passou a representar em um ambiente universitário no qual, sobretudo desde o final da década de 2010, a “descolonização” do conhecimento ganhou crescente centralidade. A importância política e intelectual dessa agenda, contudo, não deveria dispensá-la dos critérios ordinários de avaliação acadêmica. Quando representatividade, identidade ou capital simbólico passam a operar sem uma régua igualmente exigente de produção intelectual, consistência teórica e competência científica, corre-se o risco de fragilizar precisamente os campos de investigação que se pretende fortalecer.
O problema, a meu ver, não reside na diversidade, nem é propriamente novo. Em 2016, na Universidade de Oxford, Tariq Ramadan ocupava posição de grande visibilidade institucional e intelectual, associada também à sua condição de intelectual europeu de origem suíço-egípcia e à sua atuação nos debates sobre islamismo, multiculturalismo e identidade. As acusações que posteriormente vieram a público e se comprovaram sobre assédio sexual suscitaram uma discussão importante sobre a disposição de instituições e redes acadêmicas em proteger figuras investidas de elevado capital político e simbólico. Interessa-me aqui menos reconstituir as especificidades do caso do que observar um mecanismo institucional recorrente: determinadas biografias podem adquirir um valor representacional tão elevado que a crítica dirigida ao indivíduo corre o risco de ser interpretada como ataque à causa, ao grupo ou à identidade que ele supostamente encarna.
Algo semelhante, embora em outro registro, tornou-se evidente no caso envolvendo Nimrod Reitman e Avital Ronell. Quando estive em Harvard, Reitman, então doutorando da Universidade de Nova York, encontrava-se ligado ao ambiente acadêmico em que eu trabalhava após ter denunciado Ronell por assédio sexual e moral. O episódio tornou-se particularmente revelador pela mobilização pública de intelectuais de enorme prestígio em defesa de Ronell, entre eles Judith Butler, Gayatri Spivak e Slavoj ZiZek, mesmo diante da existência de uma investigação institucional e de documentação substantiva sobre o caso. A controvérsia também alcançou o próprio movimento Me Too, sobretudo porque acadêmicas feministas de grande projeção continuaram a manifestar apoio a Ronell mesmo após a divulgação das acusações de má conduta sexual. Judith Butler posteriormente reviu parte de sua posição e lamentou ter sugerido “que o status e a reputação de Ronell merecem qualquer tipo de tratamento diferenciado”. Ainda assim, outras intervenções públicas procuraram relativizar a gravidade do caso: Slavoj ZiZek descreveu os anos de assédio de Ronell a Reitman como “uma série de atos de excentricidade”, enquanto Lisa Duggan caracterizou os e-mails enviados por Ronell como “práticas de intimidade queer”. Essas formulações tornaram-se particularmente reveladoras da maneira pela qual prestígio acadêmico, afinidades intelectuais e pertencimentos políticos podem produzir linguagens de exceção, capazes de reinterpretar condutas graves quando praticadas por figuras investidas de elevada autoridade no campo intelectual. Novamente, o aspecto sociologicamente mais interessante não está apenas nas condutas individuais, mas na capacidade das redes de prestígio, afinidade intelectual e pertencimento político de interferirem na disposição para submeter determinados atores ao mesmo escrutínio reservado aos demais.
Por isso, não considero que estejamos diante de um problema intrínseco à agenda DEI. O que me parece mais preocupante é uma configuração institucional na qual a defesa de identidades, causas ou personagens simbolicamente investidos pode, em determinadas circunstâncias, anteceder a verificação, o contraditório e a crítica. Políticas de inclusão podem corrigir exclusões históricas e ampliar legitimamente o repertório social e intelectual das universidades; outra coisa é transformar representação em credencial autossuficiente ou permitir que determinadas posições políticas funcionem como proteção contra os procedimentos ordinários de avaliação acadêmica. A inclusão perde parte de sua força quando exige a suspensão dos mesmos critérios críticos que justificam a existência da universidade.
Mas é importante dizer que o fenômeno não está restrito ao campo progressista. Há também um movimento simétrico, vindo daqueles que se apresentam justamente como adversários da chamada universidade “woke”. O caso de Steven Pinker, em Harvard, parece-me ilustrativo. Pinker se tornou uma das figuras públicas mais reconhecidas na defesa de interpretações naturalistas do comportamento humano e, mais recentemente, passou a dirigir críticas recorrentes às Ciências Sociais, à Sociologia e às agendas contemporâneas de gênero e inclusão. Há certa ironia nesse percurso: embora não seja sociólogo por formação, mobilizou durante décadas pesquisas, categorias e debates provenientes das Ciências Sociais, dialogou extensamente com esse campo e se beneficiou de sua circulação intelectual. Mais recentemente, porém, passou também a ocupar o papel público de crítico de algumas de suas principais vertentes contemporâneas.
Essa inflexão não me parece explicável apenas como uma controvérsia epistemológica. Ela ocorre em um momento no qual certas interpretações biologizantes do comportamento, das diferenças sexuais e das desigualdades humanas passaram a ser submetidas a um escrutínio mais sistemático por pesquisadoras feministas, historiadores da ciência, filósofos da biologia e cientistas sociais. Parte da reação à chamada agenda “woke” parece decorrer, nesse sentido, não somente de divergências científicas legítimas, mas também de uma disputa pela preservação de formas anteriores de autoridade intelectual.
Foi justamente nesse contexto que me chamou a atenção a controvérsia de Pinker envolvendo minha antiga supervisora em Harvard, Sarah S. Richardson. No ano passado, Pinker a acusou publicamente de “negar a existência do sexo biológico”. Há aqui uma assimetria que considero importante destacar. Richardson construiu uma produção extensa e intelectualmente consistente precisamente sobre a história e a epistemologia das categorias de sexo e gênero, examinando como diferenças biológicas são definidas, mensuradas e transformadas em explicações sobre comportamento, saúde e desigualdade. Seu argumento não consiste em negar a materialidade biológica do sexo, como frequentemente sugerem leituras caricaturais de seu trabalho, mas em demonstrar que aquilo que a ciência identifica como “diferença sexual” depende também das perguntas formuladas, dos desenhos experimentais, das categorias utilizadas e das inferências que se consideram legítimas a partir dos dados.
Trata-se de uma agenda de investigação substantiva, situada na intersecção entre história da ciência, filosofia da biologia, estudos de gênero e análise crítica da produção biomédica. Uma das contribuições mais importantes de Richardson tem sido demonstrar que reconhecer processos biológicos não obriga a assumir explicações deterministas ou essencialistas sobre homens e mulheres, tampouco autoriza que diferenças estatísticas sejam automaticamente transformadas em diferenças naturais, universais ou socialmente significativas. Sua produção mostra, ao contrário, como pressupostos culturais sobre sexo e gênero podem participar do próprio desenho da pesquisa e posteriormente reaparecer, nas conclusões, como se fossem propriedades transparentes da natureza.
Por isso me pareceu particularmente problemática a maneira como uma controvérsia recente em torno de um artigo-perspectiva de Richardson publicado na Lancet foi incorporada às guerras culturais norte-americanas, neste caso, com Pinker, em particular. Uma discussão epistemológica complexa sobre os usos científicos das categorias de sexo e gênero rapidamente passou a circular em redes politicamente mobilizadas contra abordagens classificadas como “woke” ou trans-inclusivas. O resultado foi uma desproporção evidente entre a complexidade do argumento científico e sua tradução no debate público: uma reflexão sofisticada sobre como conceitos biológicos são produzidos e operacionalizados passou a ser apresentada, em determinados círculos, como simples negação da biologia.
Esse episódio é revelador porque mostra que o biologicismo pode operar pela mesma lógica de simplificação que seus defensores frequentemente atribuem aos adversários. A produção de Richardson pode e deve ser contestada — como qualquer produção científica —, mas uma contestação intelectual exigiria enfrentar sua literatura, seus argumentos, sua reconstrução histórica e os problemas epistemológicos que ela formula. Substituir esse confronto por rótulos políticos, mobilização de audiências ideologicamente predispostas ou campanhas de deslegitimação transfere uma disputa científica do terreno da crítica para o da reputação e das guerras culturais.
Há ainda uma transformação mais ampla na maneira como se produz prestígio intelectual. Alguns relatos sobre processos seletivos envolvendo Arday, por exemplo, descrevem uma recepção institucional marcada pela antecipação de sua condição de figura pública, a ponto de uma candidata que teria participado de uma seleção com ele afirmar que o tratamento dispensado pelo departamento se aproximava daquele reservado a “um guru, uma celebridade”. Relatos desse tipo precisam evidentemente ser tomados com cautela, mas apontam para um fenômeno que merece atenção: a emergência do intelectual midiático, cuja autoridade pode derivar não apenas de uma obra consolidada, mas também da combinação entre visibilidade pública, circulação digital, capacidade performática e adequação a expectativas políticas ou institucionais.
Essa lógica não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita. O intelectual celebrado como emblema de inclusão e o intelectual que constrói sua notoriedade denunciando os excessos da inclusão podem ocupar posições ideológicas opostas e, ainda assim, participar de um mesmo regime de produção de autoridade. Em ambos os casos, visibilidade, identidade, popularidade e alinhamento político podem passar a competir com mecanismos mais lentos e menos espetaculares de reconhecimento: produção consistente, debate entre pares, domínio da literatura, investigação empírica e disposição para submeter as próprias hipóteses à crítica.
Algo semelhante ocorre no Brasil, e considero isso particularmente lamentável. Tanto a vulgarização de agendas progressistas quanto a reação caricatural contra elas parecem indicar menos um interesse crescente em sofisticar teorias, conceitos e evidências do que uma disputa pela centralidade, pela autoridade e pelo direito de estabelecer quem pode falar legitimamente em nome da ciência. A escolha relevante, portanto, não é entre uma universidade “woke” e outra supostamente purificada dessas agendas. O problema sociológico mais interessante está em compreender como identidades, redes de prestígio, visibilidade midiática e alianças políticas passaram a interferir de maneira cada vez mais explícita nos mecanismos de reconhecimento intelectual.
Para as Humanidades e as Ciências Sociais, essa transformação é especialmente perigosa. Quando prestígio, popularidade ou representatividade substituem — em vez de simplesmente acompanharem — critérios de consistência intelectual e escrutínio entre pares, cria-se um terreno fértil para oportunismos, exageros e fraudes. Ao mesmo tempo, quando a crítica legítima a esses problemas é apropriada por campanhas anti-intelectuais que apresentam campos inteiros do conhecimento como fraudulentos ou ideológicos, o resultado é igualmente destrutivo. Os dois movimentos terminam por alimentar um mesmo processo: a erosão da credibilidade dos sistemas peritos e da própria ideia de crítica acadêmica.
Talvez este seja, portanto, o ponto que une esses casos aparentemente tão distintos. O problema não está apenas em quem ocupa uma posição ou em qual agenda política essa pessoa representa, mas nas condições pelas quais concedemos autoridade, suspendemos dúvidas e decidimos quem merece ser submetido ao escrutínio. Uma universidade intelectualmente plural não deveria exigir menos crítica, mas mais; e justamente porque diversidade, inclusão e liberdade acadêmica são valores importantes, nenhum deles deveria funcionar como salvo-conduto contra os procedimentos críticos que dão legitimidade ao conhecimento científico.