Antes da política de AIDS, as pessoas

Uma entrevista com Paulo Roberto Teixeira

e Lindinalva Teodorescu.

 

A entrevista Escolas paulistas da AIDS: estilos, disputas e políticas de vida – 1980/1990, realizada por João Paulo Gugliotti com Paulo Roberto Teixeira e Lindinalva Teodorescu, publicada em pre-print na Ciência & Saúde Coletiva, constitui um documento importante para a história social da AIDS no Brasil, sobretudo por devolver à experiência paulista sua espessura institucional, política e moral, muitas vezes subsumida pela narrativa posterior, mais estável e consagrada, do chamado “modelo brasileiro” de enfrentamento da epidemia. Ao recolher a trajetória de Teixeira, médico sanitarista ligado à Reforma Sanitária, à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e aos primeiros serviços públicos voltados à AIDS, em diálogo com a mediação histórica de Teodorescu, a entrevista permite compreender como a epidemia foi progressivamente deslocada do terreno da suspeita, da vergonha e da excepcionalidade clínica para o campo da saúde pública, dos direitos e da ação estatal.

A força do texto reside no modo como ele restitui a AIDS aos conflitos que a tornaram inteligível. Antes que houvesse consenso epidemiológico, protocolo terapêutico ou política nacional consolidada, havia uma rede instável de médicos, sanitaristas, militantes homossexuais, gestores, jornalistas, infectologistas, pesquisadores, travestis, pacientes, bancos de sangue, hospitais universitários e serviços públicos, todos atravessados por disputas de autoridade, por expectativas de prestígio, por cálculos institucionais e por julgamentos morais sobre sexualidade, morte e responsabilidade. A entrevista mostra que a AIDS, em São Paulo, não foi simplesmente recebida pela medicina como uma nova doença infecciosa, mas produzida como problema público em meio a combates que envolviam o lugar da clínica, o papel da universidade, a legitimidade da saúde pública e a presença dos movimentos sociais contestatórios e radicais na formulação das respostas.

A noção de “escolas paulistas da AIDS” ganha, nesse quadro, sentido historiográfico particular. Ela nomeia estilos de intervenção, regimes de autoridade e modos concorrentes de definir o que deveria ser feito diante da epidemia. De um lado, a resposta organizada em torno da Secretaria de Estado da Saúde e do Instituto de Saúde, associada a Paulo Teixeira, aparece marcada pela linguagem sanitarista, pela abertura aos movimentos homossexuais, pela defesa do acesso universal, pela crítica ao estigma e pela compreensão da AIDS como acontecimento político da saúde. De outro, setores da medicina universitária paulista, em especial aqueles ligados à infectologia hospitalar, reivindicavam para si a autoridade sobre a nova doença a partir de uma posição mais fortemente clínica, acadêmica e hierarquizada. Entre esses polos, a entrevista revela uma história menos linear que agonística, feita de rivalidades, deslocamentos, conversões tardias, confrontos públicos e negociações institucionais.

Esse é um dos principais méritos do documento, isto é, retirar a história da AIDS de uma cronologia pacificada e reinscrevê-la no interior das instituições concretas onde se decidiram destinos, fluxos, leitos, testes, medicamentos e formas de nomear populações. A criação do Programa de AIDS em São Paulo, em 1983, aparece como epítome decisivo porque impediu que a epidemia fosse confinada ao espaço universitário ou ao atendimento privado, afirmando que cabia à saúde pública assumir uma crise que envolvia sexo, circulação internacional, sangue, morte, imprensa e discriminação. Essa decisão, ao mesmo tempo técnica e política, definiu uma gramática de intervenção que faria de São Paulo um laboratório para experiências posteriormente incorporadas, tensionadas ou reorganizadas no plano nacional.

A entrevista também ilumina um aspecto central da historiografia contemporânea da AIDS: a impossibilidade de separar produção científica e produção moral. As controvérsias sobre testagem anti-HIV, bancos de sangue, leitos hospitalares, transmissão heterossexual, distribuição de medicamentos e redução de danos evidenciam que cada decisão técnica carregava uma definição implícita sobre quais vidas mereciam proteção, quais sujeitos eram considerados responsáveis por sua exposição e quais instituições deveriam responder pelos efeitos da epidemia. A discussão sobre os testes em pool, a fiscalização dos bancos de sangue e o fechamento de estabelecimentos que colocavam doadores e receptores em risco mostram a saúde pública como prática de intervenção sobre mercados, rotinas laboratoriais e poderes privados; as disputas por internação no Emílio Ribas e no Hospital das Clínicas revelam, de outro modo, a distância entre o prestígio das escolas médicas e sua disposição efetiva para absorver os corpos marcados por uma doença socialmente desqualificada.

Outro eixo decisivo é a relação entre AIDS, movimento homossexual e política da prevenção. A entrevista recupera as alianças com o Somos, o Outra Coisa e o GAPA, mas também as tensões com intelectuais e militantes que temiam ver a homossexualidade novamente capturada pela linguagem médica, agora não mais pela psiquiatria, mas pela epidemiologia. A referência a Néstor Perlongher é particularmente significativa porque desloca a discussão para o problema, ainda atual, de como construir políticas de saúde sem transformar identidades em diagnósticos e práticas sexuais em sinais morais. A resposta paulista, tal como reconstruída por Teixeira e Teodorescu, não aparece como solução pura desse impasse, mas como experiência histórica situada, obrigada a agir sob a pressão da morte e, ao mesmo tempo, a negociar com os efeitos classificatórios de toda intervenção sanitária.

Para a historiografia paulista, a entrevista oferece uma contribuição substantiva ao mostrar que a AIDS funcionou como ente aglutinador das hierarquias internas e anteriores ao campo médico. As escolas médicas, os hospitais de referência e os serviços da Secretaria da Saúde disputavam pacientes, legitimidade, visibilidade pública e monopólio interpretativo sobre a epidemia. O que estava em jogo, similarmente, era a definição mesma de autoridade: quem podia falar em nome da ciência, quem podia falar em nome dos afetados, quem podia transformar uma emergência em política e quem podia decidir que a proteção da vida exigia confronto com moralidades estabelecidas. Nesse sentido, a entrevista interessa à história da medicina, à sociologia da saúde, aos estudos sobre sexualidade e à história política da redemocratização brasileira.

Ao reunir memória, controvérsia e interpretação, Gugliotti entretece um debate com dois especialistas no campo, personas vivas da própria memória social da AIDS, costurando a epidemia nas tramas de uma rede que reorganizou as fronteiras entre clínica e saúde pública, Estado e sociedade civil, ciência e moralidade, prevenção e direito. Sua relevância está em mostrar que a política brasileira de AIDS nasceu de disputas situadas, de instituições desiguais, de alianças frágeis e de decisões tomadas antes que a história soubesse que aquelas escolhas seriam depois convertidas em modelo. Revisitar esse passado, portanto, não significa celebrar uma origem, mas examinar as condições sociais que tornaram possível uma resposta pública diante de vidas que, em muitos outros contextos, teriam sido abandonadas à culpa, ao silêncio e à morte administrativa.



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