A economia moral do cuidado
Divisão sexual do trabalho, sobrecarga feminina e a produção social da saúde infantil.
A publicação do artigo “Desigualdade de gênero como determinante estrutural da alimentação e da saúde materno-infantil na Amazônia”, de Ana Carolina de Andrade Hovadick, Paola Soledad Mosquera e João Paulo Gugliotti, na edição especial de 25 anos da Revista Brasileira de Saúde Materno-Infantil, inscreve-se em um momento particularmente oportuno do debate em Saúde Coletiva, no qual as limitações de abordagens estritamente comportamentais e individualizantes tornam-se cada vez mais evidentes.
O texto propõe uma inflexão analítica relevante ao deslocar a compreensão das práticas alimentares e dos desfechos em saúde materno-infantil de uma lógica centrada na escolha individual para uma leitura estrutural, ancorada nas desigualdades de gênero que organizam o cotidiano da vida social na Amazônia Ocidental. Ao recuperar historicamente o processo de ocupação da região — particularmente o regime seringalista e suas formas de exclusão e exploração feminina — o artigo evidencia como a divisão sexual do trabalho se consolidou como princípio durável, estruturando expectativas sociais em torno do cuidado, da alimentação e da maternidade.
Nessa chave interpretativa, o avanço recente dos alimentos ultraprocessados não é tratado como mera transição nutricional ou como efeito de preferências contemporâneas, mas como expressão concreta de arranjos desiguais de tempo e trabalho doméstico. A sobrecarga feminina — marcada pela sobreposição entre trabalho produtivo e reprodutivo — emerge, assim, como elemento central para compreender por que tais produtos se tornam soluções viáveis no cotidiano, ainda que produzam efeitos deletérios sobre a saúde infantil.
Ao articular gênero, raça e classe em uma perspectiva interseccional, o artigo também evidencia como essas desigualdades incidem de forma mais intensa sobre mulheres pretas e pardas, situando a saúde materno-infantil como um marcador consistente das iniquidades sociais no Brasil contemporâneo. Tal enquadramento permite tensionar políticas públicas que, embora orientadas à promoção da alimentação saudável, continuam a responsabilizar desproporcionalmente as mulheres, reiterando uma economia moral do cuidado que permanece amplamente naturalizada.
Por fim, o paper sustenta que avanços substantivos nesse campo exigem mais do que intervenções nutricionais, isto é: transformações mais amplas nas condições sociais de reprodução da vida, incluindo a redistribuição do trabalho doméstico, a incorporação de outros cuidadores — especialmente figuras paternas — e a formulação de políticas intersetoriais comprometidas com a justiça social. Ao fazê-lo, o artigo contribui para reposicionar o debate sobre alimentação e saúde materno-infantil no interior de uma crítica mais ampla às desigualdades estruturais, reafirmando o papel da saúde coletiva como campo capaz de articular análise histórica, sensibilidade sociológica e compromisso político.