O esperma está acabando?

Ou como a ciência transformou variação espermática em crise.

João Paulo Gugliotti.

 

A literatura recente sobre o chamado sperm decline — a hipótese de que haveria um declínio global e contínuo na contagem de espermatozoides — constitui menos um consenso científico do que um campo de disputa epistemológica, no qual dados semelhantes são mobilizados a partir de pressupostos interpretativos profundamente distintos. A meta-análise de Levine et al. (2017), frequentemente tomada como ponto de inflexão desse debate, estimou uma queda de aproximadamente 59,3% na concentração espermática média entre homens de países classificados como “ocidentais” entre 1973 e 2011, resultado que rapidamente transbordou o campo da andrologia para se converter em narrativa pública de crise — biológica, demográfica e, não raro, civilizatória.

No entanto, como argumentam Boulicault et al. (2022) no artigo The future of sperm: a biovariability framework, o que se convencionou chamar de hipótese do declínio (Sperm Count Decline – SCD) repousa sobre um conjunto de premissas frequentemente não explicitadas: a ideia de que a contagem espermática constitui um proxy robusto de fertilidade masculina; que médias populacionais refletem estados de saúde; e que valores mais altos — particularmente aqueles observados nas décadas de 1970 — representariam um padrão “ótimo” ou normativo.

Uma leitura mais detida dos próprios dados, contudo, revela fissuras importantes nessa narrativa. Ainda que a média em populações ocidentais não selecionadas tenha caído de cerca de 99 milhões/mL para 47,1 milhões/mL no período analisado, ambos os valores permanecem dentro da faixa considerada “normal” pela Organização Mundial da Saúde (15–259 milhões/mL), o que relativiza a ideia de um colapso funcional da fertilidade masculina. Além disso, não se observa, no mesmo intervalo, um aumento proporcional de infertilidade masculina clínica, o que sugere que a relação entre contagem espermática e capacidade reprodutiva é não-linear, contingente e mediada por múltiplos fatores biológicos e sociais.

É nesse ponto que os autores propõem um deslocamento analítico decisivo: em vez de interpretar a variação como declínio, sugerem compreendê-la como biovariabilidade (Sperm Count Biovariability – SCB). Tal enquadramento parte do princípio de que a contagem de espermatozoides varia amplamente dentro de um espectro fisiológico típico da espécie, sendo sensível a fatores ecológicos, históricos e individuais — desde condições de coleta e excitação até exposições ambientais, trajetórias de vida e processos de migração.

Essa perspectiva desestabiliza uma das premissas centrais do SCD: a de que médias populacionais podem ser comparadas ao longo do tempo como se representassem entidades estáveis. Ao contrário, Boulicault et al. (2022) demonstram que categorias como “Ocidente” e “Outros” operam como agregações frágeis, que obscurecem transformações demográficas profundas — como fluxos migratórios massivos desde a década de 1970 — e mascaram heterogeneidades internas significativas. A própria significância estatística do declínio, por exemplo, depende de decisões analíticas específicas, como a agregação de subgrupos geográficos distintos, o que pode produzir efeitos artificiais de consistência.

Do ponto de vista etiológico, a hipótese dominante de que disruptores endócrinos e poluentes industriais seriam responsáveis por uma queda global tampouco encontra respaldo empírico robusto. Embora tais substâncias estejam associadas a diversos agravos à saúde, não há evidência conclusiva de uma relação causal estável com parâmetros espermáticos em populações humanas, sobretudo quando se consideram as desigualdades globais de exposição — frequentemente mais intensas em países de baixa e média renda, onde, paradoxalmente, não se observa o mesmo padrão de declínio.

O que emerge, portanto, não é apenas uma controvérsia técnica, mas um problema sociológico mais amplo: a transformação de uma métrica biomédica em índice de ansiedade cultural. A narrativa do declínio espermático tem sido reiteradamente apropriada por discursos sobre crise da masculinidade, declínio do “Ocidente” e ameaças demográficas, evidenciando como categorias científicas podem ser reinscritas em regimes de significado que excedem em muito sua base empírica.

Nesse sentido, a proposta de uma abordagem baseada na biovariabilidade não apenas reorienta o desenho de pesquisa — enfatizando estudos longitudinais, contextualmente situados e ecologicamente informados — como também opera uma crítica mais profunda: a de que a busca por tendências lineares globais pode obscurecer a complexidade dos corpos, reduzindo a variabilidade biológica a sinal de patologia. Ao invés de um declínio universal, o que os dados parecem indicar é um campo de variação dinâmica, no qual saúde, fertilidade e ambiente se articulam de maneira historicamente contingente e metodologicamente difícil de capturar.



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