Paulo Teixeira, 1949-2026

O médico que estava lá no começo.

João Paulo Gugliotti.

João, antes de nos encontramos com Paulo, preciso lhe dizer uma coisa: ele não está nada bem, tem sido relutante com nossos conselhos, mas aceitou lhe receber e está lhe aguardando para a entrevista. Deixe o Paulo dizer o que ele quiser, às vezes ele poderá dizer coisas que não são críveis, outras vezes dirá coisas extremamente lúcidas, vamos seguir e você ajusta conforme for necessário. Essa semana ele tem passado bem e está mais calmo.

– Lindinalva Teodorescu. Fevereiro de 2026.

 

Soube hoje, 19 de setembro de 2026, da morte de Paulo Roberto Teixeira. Tinha 77 anos. A notícia imediatamente me devolveu a uma tarde de fevereiro deste ano, quando Paulo me recebeu em seu apartamento, em São Paulo. Chovia. Eu havia ido até lá para entrevistá-lo sobre uma pesquisa que desenvolvia para um livro escrito com Lilia Blima Schraiber, mas antes me encontrei com Lindinalva Teodorescu, em seu apartamento, para algumas notas introdutórias. Queríamos compreender as diferentes maneiras pelas quais a medicina paulista havia respondido à emergência da AIDS nos anos 1980: os estilos médicos, as controvérsias, as instituições e as concepções de doença, risco e responsabilidade que se formaram em torno de nomes como Ricardo Veronesi, Vicente Amato Neto e o próprio Paulo.

A entrevista havia sido possível graças à generosa mediação de Teodorescu, socióloga, amiga de Paulo de uma vida inteira e sua companheira em décadas de reflexão e luta em torno da AIDS. Algum tempo antes, os dois haviam realizado um empreendimento historiográfico monumental: Histórias da Aids no Brasil, 1983–2003, obra em dois volumes na qual reconstruíram, a partir dos testemunhos de seus protagonistas, tanto as respostas governamentais à epidemia quanto a organização da sociedade civil. Talvez por isso aquela conversa de fevereiro nunca tenha sido, propriamente, uma entrevista entre duas pessoas. Lindinalva entrava e saía da narrativa, acrescentava episódios, recuperava nomes, situava acontecimentos. A memória da epidemia estava ali sendo produzida coletivamente diante de mim, um jovem pesquisador que buscava compreender um tempo anterior ao próprio.

Há algo profundamente sociológico nessa cena. Instituições costumam sobreviver aos indivíduos e, com o tempo, produzir a impressão de que sempre estiveram ali, de que sua existência resultou de algum desenvolvimento quase necessário. A história da AIDS brasileira desmente essa ilusão. Políticas públicas são feitas em conjunturas determinadas, por pessoas situadas em relações de força, diante de alternativas que poderiam ter conduzido a outros caminhos, terem sido catastróficas ou muito piores, é verdade. Paulo e Lindinalva escreveram, anos atrás, que o êxito da resposta paulista precisava ser compreendido a partir da confluência entre redemocratização, Reforma Sanitária, mobilização social e a presença, em posições estratégicas do Estado, de pessoas dispostas a experimentar formas novas de ação pública. Naquela tarde, enquanto Paulo reconstruía os primeiros anos da epidemia, de forma preciosa e com pouca pressa em tecer os fatos, essa contingência adquiria nomes, lugares e conflitos muito concretos.

Paulo Roberto Teixeira nasceu em Álvares Machado, no interior de São Paulo. Formou-se em Medicina em Botucatu, especializou-se em dermatologia na Escola Paulista de Medicina e realizou formação em saúde pública na Universidade de São Paulo. Sua trajetória médica foi desde cedo inseparável da política. Participou do movimento estudantil e da Ação Popular durante a ditadura militar e foi preso em diferentes momentos daquele período. Pertencia a uma geração para a qual saúde pública, democratização e cidadania não eram agendas facilmente separáveis.

Quando a AIDS começou a aparecer em São Paulo, Paulo estava à frente da Divisão de Hansenologia e Dermatologia Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde. A experiência com a hanseníase não constitui um detalhe lateral de sua biografia. Significava conhecer uma doença sobre a qual incidiam, simultaneamente, saber médico e estigma; compreender que a intervenção sanitária também podia produzir exclusão; reconhecer que a relação entre doença e sociedade não se esgotava no diagnóstico. Quando, em 1983, representantes do movimento homossexual e profissionais da saúde procuraram o governo paulista diante dos primeiros casos de AIDS, foi nesse terreno institucional e intelectual que a resposta começou a ser construída, evidentemente, assentada em conflitos e disputas.

Sob sua coordenação surgiu o Programa Estadual de AIDS de São Paulo, considerado o primeiro programa público do país voltado à epidemia. Desde o princípio, vigilância epidemiológica, assistência e informação foram acompanhadas por uma preocupação deliberada com discriminação, direitos e diálogo com as populações mais atingidas. O programa nasceu durante a abertura democrática, no governo Franco Montoro e na gestão de João Yunes na Secretaria da Saúde, quando o movimento sanitário fazia da universalização do direito à saúde uma questão política decisiva.

Talvez seja aí que se encontre um dos aspectos mais importantes daquilo que, no livro, passamos a chamar de diferentes “escolas paulistas da AIDS” – mas essa não é uma denominação nossa, propriamente, tendo sido explorada por Luiz Mott em outra ocasião, assim como por parte da historiografia paulista contemporânea. A expressão não pretendia designar escolas formalmente constituídas. Interessava-nos compreender estilos de pensamento e intervenção: maneiras distintas de definir o problema, produzir autoridade médica, relacionar clínica e saúde pública, conceber o risco e responder às populações atingidas pela epidemia.

O relato de Paulo tornava essas diferenças particularmente visíveis. Em contraste com respostas fortemente centradas na autoridade clínica ou infectológica, o serviço que ele ajudou a construir aproximava saúde pública, assistência, psicologia, vigilância epidemiológica e movimentos sociais. Em nossa entrevista, ele reconstruiu também os conflitos entre serviços e especialistas, as dificuldades para garantir internação, as controvérsias relativas ao sangue e aos bancos de sangue, as disputas sobre testagem e as resistências que acompanharam a institucionalização da AIDS como problema de responsabilidade pública. O consenso que retrospectivamente pode parecer ter organizado a resposta brasileira simplesmente não existia. Ele precisou ser construído. E foi construído em disputa. Em uma de suas falas, Paulo me lembrou: “nós não tínhamos resposta, era uma época anterior ao AZT, mas nós tínhamos escuta, acolhimento, falávamos de ciência e de crenças, as pessoas queriam ser escutadas, de qualquer ponto de vista”.

Essa talvez tenha sido uma das coisas que mais me marcaram naquela tarde. Eu havia chegado à casa de Paulo interessado nas controvérsias entre médicos e instituições paulistas; saí de lá pensando na própria fragilidade histórica das respostas que hoje tomamos como evidentes e que custam resistir. O princípio de que uma pessoa com HIV deveria ser tratada sem julgamento moral; a articulação entre prevenção e assistência; o reconhecimento dos movimentos sociais como interlocutores legítimos do Estado; a ideia de que acesso ao medicamento constitui um direito: nenhuma dessas posições estava inscrita de antemão na epidemia. Foram escolhas políticas, técnicas e morais.

Paulo continuaria a levá-las para outras escalas. Coordenou o programa paulista em diferentes períodos e, entre 2000 e 2003, esteve à frente do Programa Nacional de DST/AIDS. Participou das disputas internacionais pelo acesso a antirretrovirais, pela redução dos preços dos medicamentos e pela utilização das flexibilidades relativas à propriedade intelectual em situações de interesse da saúde pública. Atuou como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde e do Unaids e, em 2003, assumiu a direção do Departamento de HIV/AIDS da Organização Mundial da Saúde, participando dos esforços internacionais para ampliar o tratamento antirretroviral em países de baixa e média renda.

Mudava a escala de atuação, mas permanecia reconhecível uma mesma gramática política: prevenção e tratamento não deveriam ser contrapostos; desigualdades econômicas entre países não poderiam determinar quais vidas teriam acesso às tecnologias capazes de prolongá-las; uma política de epidemias que ignorasse direitos humanos produziria ela própria novas formas de sofrimento e fracasso.

É tentador contar essa história como uma sucessão de conquistas. Paulo me ajudou a compreendê-la de outra maneira. Sua narrativa era povoada por conflitos, derrotas, afastamentos, alianças improváveis, mudanças de posição, alguns ressentimentos, pessoas que resistiram e pessoas que aprenderam. A saúde pública aparecia menos como uma arquitetura pronta do que como um campo permanentemente produzido pelas relações entre Estado, ciência, movimentos sociais e experiências concretas de adoecimento.

A conversa daquela tarde acabou tomando outro destino. Parte dela tornou-se o capítulo do livro que eu escrevia com Lilia Blima Schraiber. Outra parte deu origem ao artigo “Escolas paulistas da AIDS: estilos, disputas e políticas de vida – 1980/1990. Uma entrevista com Paulo Teixeira e Lindinalva Teodorescu”, publicado recentemente em pre-print, na Ciência & Saúde Coletiva. Quando escolhi a expressão “políticas de vida” para o título, ela me pareceu uma maneira de nomear sociologicamente aquilo que a entrevista revelava: a epidemia havia colocado em confronto diferentes formas de decidir quais vidas mereciam cuidado, quais sujeitos poderiam falar sobre sua própria experiência e que responsabilidades o Estado deveria assumir diante da doença. Ter um médico na retaguarda desse movimento, alguém como Paulo, certamente fez a diferença.

Hoje, essa expressão adquire inevitavelmente outro peso.

Volto mentalmente àquela tarde chuvosa. À sala do apartamento de Paulo. À presença de Lindinalva. Às minhas perguntas sobre acontecimentos ocorridos quarenta anos antes e à naturalidade com que os dois atravessavam décadas, instituições e personagens. Para quem trabalha com história da saúde, há um momento estranho em que aquilo que aparece nos documentos ganha voz, quando passamos a conhecer de perto essas grandes figuras. Nomes encontrados em jornais, relatórios, artigos e arquivos deixam temporariamente de pertencer ao passado e se sentam diante de nós para contar como as coisas aconteceram — ou, talvez de maneira ainda mais importante, como poderiam ter acontecido de outro modo.

Paulo era um desses nomes que eu encontrara inúmeras vezes antes de conhecê-lo. Estava nos documentos dos primeiros anos da AIDS, nas controvérsias médicas, nos programas governamentais, nas discussões sobre sangue, prevenção e tratamento, nas relações entre Estado e movimento homossexual, nas disputas internacionais sobre medicamentos. Lembro de ler as páginas do Estadão para outro artigo, também publicado na Ciência & Saúde Coletiva com Schraiber, em 2023, e ver muitas entrevistas de Paulo, sempre em tom disruptivo, crítico, ao modo como ele me interpelava ali, naquela tarde, por algumas horas.

Há uma responsabilidade particular em escutar alguém que participou da história que estudamos. Paulo sabia que estava falando como protagonista, mas também como alguém que havia dedicado anos a pensar e registrar aquela história ao lado de Lindinalva.

Sua morte ocorre quando parte desse testemunho acaba de entrar novamente em circulação pública. Isso me comove de maneira particular. A entrevista que começou naquela tarde de fevereiro agora existe como registro de sua voz, de suas avaliações, de seus desacordos e de sua maneira de compreender a epidemia que atravessou grande parte de sua vida profissional e política.

A história brasileira da AIDS não pode ser reduzida a heróis individuais. O próprio percurso de Paulo ensina precisamente o contrário: foram redes de profissionais, ativistas, pessoas vivendo com HIV, pesquisadores, gestores e organizações da sociedade civil que fizeram da resposta à epidemia um campo de ação coletiva. Mas reconhecer esse caráter coletivo não exige apagar os indivíduos. Algumas pessoas ocupam posições a partir das quais ajudam a alterar o conjunto das possibilidades históricas.

Paulo Roberto Teixeira foi uma delas.

Sou profundamente grato por ter podido escutá-lo.



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