Onde começa, afinal, A Redenção de Cam?
João Paulo Gugliotti.
Pelo ventre se conhece a nação.
A tela A Redenção de Cam (1895), de Modesto Brocos, tornou-se uma das imagens mais reiteradamente mobilizadas na historiografia e nas artes brasileiras para ilustrar o imaginário racial do pós-Abolição. A leitura consagrada — quase automática — insiste em tomar os bebês como seu eixo interpretativo: o suposto embranquecimento progressivo, a visualização pedagógica da mestiçagem e a alegoria de um futuro racialmente redimido. Esse paradigma interpretativo, embora historicamente informativo, opera também como um desvio. Ele desloca o olhar daquilo que, na economia simbólica da obra, sustenta silenciosamente todo o seu argumento, isto é, a figura materna.
O quadro organiza-se em torno de um núcleo doméstico aparentemente banal, em uma família de agricultores pobres formada por etnicidades mistas. Uma mulher negra mais velha ergue as mãos aos céus como se estivesse agradecendo pelo nascimento de seu neto; à sua frente, uma jovem mãe, de pele mais clara, senta-se com o bebê no colo; ao lado, o pai, branco, observa com um sorriso contido. A narrativa visual constitui um projeto de fins da Era Oitocentista, mas é raramente interrogada em seus termos próprios. Não se trata apenas de uma sequência geracional cromática, mas de uma coreografia da maternidade, na qual o corpo feminino é o verdadeiro operador da redenção prometida. O bebê, tão frequentemente colocado no centro das análises, é antes o efeito — não a causa — de um projeto que se realiza no ventre, nos cuidados e na pedagogia moral atribuída às mulheres.
Essa inversão do foco é crucial quando a obra é lida à luz da história social da eugenia no Brasil. A eugenia que se consolidou no país, especialmente em São Paulo, não se organizou prioritariamente como um programa de eliminação dos “indesejáveis”, mas como um vasto empreendimento de eugenia positiva, voltado à produção ativa de corpos considerados aptos, saudáveis e moralmente ajustados. Como demonstra Jamie Marsella ao formular o conceito de “eugenic maternalism”, a eugenia operou de maneira difusa, incorporando-se às práticas de higiene, puericultura, educação doméstica e assistência à maternidade, mobilizando as mulheres como agentes centrais da regeneração social.
No cerne desse projeto civilizacional, a maternidade não era apenas um destino biológico, mas uma função política. Ser mãe significava administrar o ambiente, disciplinar o cotidiano, garantir a transmissão correta da vida, de hábitos, valores, saúde e disposições corporais. O que estava em jogo não era simplesmente quem nascia, mas como se nascia e como se cuidava. O bebê, nesse sentido, tornava-se um índice avaliativo da competência materna. A redenção não ocorria no instante do nascimento, apesar disso. Ela era um processo longo, cumulativo e permanentemente vigiado.
A historiografia brasileira da saúde e da eugenia reforça esse argumento. Okezi Otovo, ao analisar a formação do maternalismo no Brasil entre os séculos XIX e XX, mostra como as políticas voltadas à infância e à maternidade recaíram de maneira desproporcional sobre mulheres negras e pobres, transformadas simultaneamente em objeto de intervenção e em instrumento de modernização sanitária. A maternidade afro-brasileira foi medicalizada, normatizada e moralizada, enquanto se apagavam as condições estruturais — escravidão, pobreza, trabalho doméstico, violência — que moldavam concretamente essas experiências. O ideal da “boa mãe” funcionava, assim, como um espécie tecnologia de governo e de gênero, por extensão.
É precisamente esse regime que a tela de Brocos antecipa visualmente. A mulher mais velha, de pele escura, aparece como figura do passado: agradecida, quase mística, situada fora da lógica produtiva do futuro. Já a jovem mãe ocupa o centro da composição, não apenas espacialmente, mas simbolicamente. Seu corpo é o lugar da passagem: nela se cruzam raça, gênero e projeto nacional. O pai branco, embora presente, é secundário. Ele observa, mas não age. É um agente importante de uma virada étnica. O futuro não passa por suas mãos; passa pelo ventre e pelo colo femininos.
A centralidade da maternidade articula-se de maneira ainda mais explícita quando a pintura é relacionada ao projeto intelectual e político das elites paulistas do início do século XX. Como demonstra André Mota, em Quem é bom já nasce feito: sanitarismo e eugenia no Brasil, a eugenia em São Paulo foi parte constitutiva da construção de um ideal de paulistanidade, no qual progresso, desenvolvimento e embranquecimento formavam um mesmo horizonte normativo. A figura do “homem paulista” — herdeiro simbólico do bandeirante — condensava valores de força, racionalidade, iniciativa e domínio territorial. Mas esse homem ideal só poderia existir se produzido por mulheres adequadamente moldadas pelas pedagogias sanitárias e morais do período.
Nomes como Renato Kehl e Arnaldo Vieira de Carvalho foram centrais nesse processo. Ambos articularam sanitarismo, medicina social e eugenia em um projeto que visava combater doenças e ordenar a reprodução. A ênfase na higiene pré-natal, no parto assistido, na puericultura e na educação das mães era estrutural. O corpo feminino tornava-se o verdadeiro laboratório da nação. Nesse sentido, a tela de Brocos não ilustra tão-somente uma ideologia racial; ela antecipa uma racionalidade biopolítica que se consolidaria institucionalmente nas décadas seguintes, como um projeto médico, sanitário e social.