A ciência em pre-print
João Paulo Gugliotti.
Vivemos numa época em que os perigos são produzidos mais rapidamente do que podem ser compreendidos, e seus peritos são convocados continuamente a prestar esclarecimentos. Essa frase reflete o conceito de Sociedade de Risco, popularizado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck. Ela descreve a nossa era moderna, onde os efeitos secundários dos processos de industrialização, tecnologia e modernização (como mudanças climáticas, pandemias, riscos nucleares ou inteligência artificial) superam a capacidade das instituições e da sociedade de compreendê-los, gerenciá-los ou controlá-los.
A ciência sempre conviveu com a demora. Entre a observação e a publicação, instaurava-se um intervalo que não era mero atraso burocrático, mas parte constitutiva da própria autoridade científica. A revisão por pares, a circulação restrita e a reescrita sucessiva funcionavam como mecanismos de estabilização do conhecimento. A pandemia de Covid-19, contudo, suspendeu esse regime temporal. Diante da urgência sanitária, a lentidão passou a ser percebida como falha ética. É nesse contexto que os pre-prints deixaram de ocupar um lugar marginal no campo científico e se converteram em protagonistas do debate público global.
Criados originalmente como instrumentos internos de circulação entre pares, os pre-prints passaram a ser apresentados como solução técnica para um problema moral: como produzir ciência à altura da emergência. O que se tornou menos visível, porém, foi que essa solução não dizia respeito apenas à velocidade da publicação, mas à reorganização profunda das condições sociais de produção da verdade científica. Durante a pandemia, os pre-prints não apenas anteciparam resultados; eles reconfiguraram a relação entre ciência, mídia, política e opinião pública.
Para compreender esse deslocamento, é fundamental retomar a noção de técnica tal como formulada por Milton Santos. Para o autor, a técnica não se reduz a artefatos materiais, mas constitui um conjunto de meios instrumentais e sociais por meio dos quais os seres humanos produzem a vida, organizam o espaço e estruturam o tempo. Não há, nesse sentido, separação possível entre meio técnico e meio social. Vivemos, segundo Santos, em um meio técnico-científico-informacional, no qual a informação se torna elemento central da reprodução do capitalismo globalizado, reorganizando geografias, hierarquias e formas de poder.
Os pre-prints devem ser compreendidos precisamente nesse registro. Eles não são apenas textos provisórios, mas dispositivos sociotécnicos inseridos em plataformas digitais, governados por métricas de visibilidade, algoritmos de circulação e economias da atenção. No capitalismo tardio, em que a cibernética se converte em infraestrutura geral da produção, a aceleração informacional não é neutra: ela produz efeitos políticos, cognitivos e afetivos. Ao comprimir o tempo da ciência, os pre-prints também comprimiram o tempo da dúvida, da crítica e da mediação.
A crítica de Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves às concepções dominantes de tecnologia em saúde ajuda a iluminar esse processo. Ao mapear quatro vertentes recorrentes — da tecnologia como “coisa em si” à sua subordinação à ideologia do progresso científico-tecnológico —, o autor mostra como o pensamento tecnocrático tende a naturalizar artefatos e processos, apagando suas determinações históricas e sociais. Durante a pandemia, os pre-prints foram frequentemente tratados segundo essas lógicas: como objetos portadores de verdade, como expressões diretas da Ciência ou como sinais inequívocos de avanço. Essa operação simbólica contribuiu para deslocar o debate da qualidade da evidência para a simples existência do estudo.
O resultado foi paradoxal. Em nome da transparência científica, expôs-se ao espaço público um processo que sempre foi conflitivo, provisório e marcado por disputas internas. Fora de seus regimes próprios de validação, os pre-prints passaram a circular como quase-artigos, citados por jornalistas, médicos, políticos e influenciadores. Estudos metodologicamente frágeis, especialmente aqueles que sugeriam benefícios da ivermectina ou da cloroquina, adquiriram uma visibilidade desproporcional. Muitos foram posteriormente refutados, corrigidos ou abandonados, mas já haviam cumprido sua função social: produzir dúvida.
Richard Miskolci reconhece similar processo durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, em que a dúvida passa a instar a esfera pública a partir de discursos médicos, políticos e científicos, como parte de um si-mesmo. Ao invés de interpretar a adesão a terapias ineficazes e a hesitação vacinal como simples ignorância ou negacionismo científico, Miskolci demonstra que o país viveu uma profunda divisão político-comunicacional, marcada pela coexistência de ecossistemas informacionais paralelos. A pandemia intensificou disputas pela definição legítima da realidade, deslocando a autoridade da imprensa tradicional e das instituições científicas para redes de comunicação baseadas em plataformas digitais, aplicativos de mensagens e figuras médicas e políticas alinhadas a determinados projetos ideológicos.
Nesse contexto, a ciência não foi rejeitada, mas reapropriada seletivamente, inclusive por médicos que, historicamente, são percebidos como cientistas pela opinião pública e têm seu discurso relativizado como “evidência empírica e factual”. Pre-prints, opiniões médicas isoladas e evidências preliminares passaram a ser mobilizados como recursos simbólicos em disputas públicas. A ideia de que “a ciência não é unânime” tornou-se um enquadramento poderoso, capaz de sustentar tanto a defesa de medicamentos ineficazes quanto a desconfiança em relação às vacinas. A hesitação vacinal, assim, não emergiu como déficit cognitivo, mas como produto social de enquadramentos concorrentes, nos quais ciência, política, economia e moralidade foram articuladas de modos distintos.
Esse processo foi ainda atravessado por experiências materiais de precariedade. Como mostram os grupos focais analisados por Miskolci, para amplos segmentos da população o dilema central não se organizava apenas em torno do risco sanitário, mas da sobrevivência econômica. A oposição entre “saúde” e “economia”, frequentemente tratada como falsa pela imprensa, apareceu como dilema concreto da vida cotidiana. Nessa chave, vacinas, restrições e recomendações científicas foram interpretadas como tecnologias biomédicas e como símbolos políticos, associados ora à proteção coletiva, ora ao controle estatal ou à instrumentalização eleitoral da crise.
Nikolas Rose, alternativamente, avalia que a biomedicina contemporânea não apenas produz conhecimento, mas gera biovalor: formas de valor econômico, político e simbólico extraídas da gestão da vida, do risco e da saúde. Durante a pandemia, o conhecimento científico — inclusive em sua forma preliminar — tornou-se ativo estratégico. Pre-prints passaram a circular como promessas terapêuticas, como capital reputacional e como instrumento de legitimação de decisões clínicas, políticas e mercadológicas. A vida, mais uma vez, converteu-se em objeto de investimento, disputa e especulação.
Nesse sentido, os pre-prints funcionaram como tecnologias de biovalor, não porque fossem verdadeiros ou falsos, mas porque permitiram antecipar futuros possíveis: a cura, o tratamento precoce, o retorno à normalidade. Mesmo quando desmentidos, esses futuros continuaram operando no imaginário social, alimentando desconfiança, ressentimento e polarização. A ciência falou em tempo real, mas o público ouviu sob condições profundamente desiguais de interpretação.
A pandemia revelou, assim, uma tensão estrutural do capitalismo técnico-científico-informacional: a abertura dos processos científicos sem a construção simultânea de mediações sociais robustas. Transparência sem tradução produziu ruído; aceleração sem contextualização produziu ceticismo. Os pre-prints não criaram a desinformação em saúde, mas reconfiguraram suas condições de possibilidade, oferecendo uma gramática técnica para disputas políticas já em curso.
Pensar criticamente os pre-prints, portanto, envolve mais do que discutir normas editoriais. Exige reconhecer que toda técnica é também uma forma de produzir mundo. No contexto da pandemia, os pre-prints reorganizaram o tempo da ciência, o espaço da autoridade e os afetos da confiança pública. Ignorar essa dimensão é reduzir a técnica a instrumento. Levá-la a sério, como propõem Santos, Mendes-Gonçalves, Miskolci e Rose, é reconhecer que a crise da confiança científica não é um desvio ocasional, mas um efeito estrutural das formas contemporâneas de produzir, circular e valorizar o conhecimento sobre a vida.