Há ainda ceticismo?

Polilaminina, promessas terapêuticas e a política contemporânea da esperança.

João Paulo Gugliotti.

 

Nas últimas semanas, uma molécula até então restrita aos circuitos especializados da biologia celular passou a circular com desenvoltura pelos noticiários, programas de televisão e redes sociais: a polilaminina. Apresentada em manchetes como “nova esperança” para lesões medulares e doenças neurológicas, ela foi rapidamente investida de um estatuto simbólico que ultrapassa em muito o que a literatura científica atualmente permite sustentar. Histórias individuais de pessoas que teriam recuperado movimentos após acidentes graves, frequentemente narradas em tom emocional, entrecortadas por longos depoimentos, provas imagéticas de melhora em vídeos curtos disseminados em milhares e perfis online, com forte apelo moral, passaram a operar como prova pública de uma promessa terapêutica ainda não demonstrada por meio de ensaios clínicos randomizados, controlados e reprodutíveis.

Tal episódio revela como controvérsias técnico-científicas podem ser convertidas em dramas morais, disputas jurídicas e arenas de mobilização social, deslocando o debate da prudência metodológica para o terreno da urgência e da esperança. Nesse deslocamento, a distinção entre pesquisa experimental, terapia compassiva e tratamento consolidado tende a se dissolver. Nesse novo trabalho de materialização da cura, a polilaminina abdicou de suas premissas científicas básicas para se tornar um fato social incólume.

O que é, afinal, a polilaminina?

A polilaminina é uma formulação experimental derivada de pesquisas sobre lamininas, proteínas da matriz extracelular envolvidas na organização dos tecidos e na sinalização celular. Estudos iniciais, conduzidos sobretudo em modelos in vitro e em experimentação animal, investigam seu potencial para modular processos de regeneração e reorganização do microambiente tecidual, especialmente em contextos de lesão neural. Do ponto de vista biológico, trata-se de uma linha de investigação plausível. Do ponto de vista clínico, entretanto, ainda se encontra em estado embrionário.

Até o momento, não há ensaios clínicos randomizados de fase avançada que sustentem sua eficácia terapêutica em humanos, tampouco revisões sistemáticas ou consensos em diretrizes clínicas. À luz dos critérios clássicos de inferência causal — como os propostos por Bradford Hill — faltam consistência, força de associação, reprodutibilidade e evidência experimental controlada. O que existe é uma fronteira de pesquisa em aberto, marcada por incertezas legítimas e por um longo caminho entre hipótese promissora e prática terapêutica responsável.

Midiatizando uma controvérsia em esperança médica

A representação da polilaminina no noticiário não ocorreu por meio da mediação cautelosa da pesquisa clínica, mas pela via de casos emblemáticos, judicialização e narrativas de sucesso individual amplificadas pela imprensa. A judicialização do acesso a terapias experimentais, ainda que compreensível diante do sofrimento concreto de pacientes e familiares, tende a produzir um curto-circuito institucional: hipóteses passam a ser tratadas como direitos reclamáveis, e protocolos experimentais como “tratamentos negados”.

Esse deslocamento reativa dilemas éticos recorrentes: em que medida é legítimo oferecer, fora de ensaios clínicos regulados, substâncias sem comprovação de eficácia e segurança? Que tipo de assimetria informacional se cria quando decisões clínicas são tomadas sob a pressão de promessas midiáticas? E como os sistemas públicos de saúde devem responder quando a fronteira entre pesquisa e cuidado é borrada por decisões judiciais pontuais?

A espetacularização da ciência, nesse cenário, não é um efeito aleatório de processos científicos e sociais controlados. Ela reconfigura expectativas coletivas sobre o tempo da pesquisa e converte a cautela metodológica em obstáculo moral, especificamente no caso de doenças negligenciadas, ou, ainda, mais especificamente, entre doenças altamente incapacitantes e comuns. A ciência, apresentada como lenta diante da urgência da dor, passa a ser convocada menos por seus critérios de validade do que por sua capacidade de oferecer meios para que pacientes obtenham melhora. Essa é, afinal de contas, uma disputa potencialmente justa, sobretudo quando há escassez de recursos para pesquisas científicas, cortes injustificados da parte do governo e políticas anticiência que minam a capacidade do Estado de responder a crises de saúde e problemas emergentes.

Risco, esperança e uma nova forma de governança?

O apelo social em torno da polilaminina não emerge no vazio. Ele se inscreve em uma paisagem mais ampla da saúde contemporânea, marcada pela consolidação da “epidemiologia do risco” e pela unificação entre risco, esperança e governança. Como observou Sheila Jasanoff, a produção de evidências científicas passou a operar em regimes de antecipação do futuro, nos quais cenários de risco são continuamente projetados, avaliados e politicamente mobilizados. Sarah Franklin descreveu esse regime como um tipo de “economia política da esperança”: um espaço intermediário entre a doença instalada e a cura efetiva, povoado por promessas terapêuticas, investimentos afetivos e expectativas de inovação, além de alianças cativadas entre formuladores de políticas públicas e empresas biofarmacológicas ávidas por reconhecimento e lucro.

Nesse contexto, estratégias de controle e monitoramento do risco foram progressivamente vinculadas a especialidades médicas e tecnologias de precisão. A antecipação da doença — seja por meio de rastreamentos de câncer, seja pela detecção de infecções sexualmente transmissíveis — produziu formas graduais de conscientização e responsabilização individual. O risco, ainda que incerto, tornou-se algo a ser administrado: uma condição liminar entre estar saudável e estar doente, que convoca os sujeitos a uma vigilância contínua de seus próprios corpos.

Silja Samerski descreveu essa figura contemporânea como o “indivíduo em alerta”: permanentemente convocado a monitorar marcadores biológicos, interpretar probabilidades e agir preventivamente diante de ameaças que, muitas vezes, não se materializaram. Como observam Adele Clarke e colaboradores, esse regime de prontidão biomédica transforma a saúde em tarefa interminável. Prognósticos antes formulados em nível populacional são individualizados e universalizados: todos se tornam, em alguma medida, “pacientes em espera”, portadores de riscos latentes que justificam intervenções presentes, como analisou Jennifer Fosket.

É nesse novo horizonte médico em torno do risco que a polilaminina circula como uma promessa. A molécula experimental encontra um público já treinado a viver no limiar entre risco e esperança, entre antecipação e cura projetada. A controvérsia científica não é apenas técnica: ela é absorvida por uma cultura que naturalizou a expectativa de que a inovação biomédica esteja sempre a um passo de resolver sofrimentos profundos, sem o tempo – por vezes lento – da própria ciência. O problema não reside na pesquisa em si, mas na forma como, nesse regime de antecipação permanente, hipóteses experimentais tendem a ser convertidas em promessas quase terapêuticas, sobredeterminando o ensaio clínico randomizado pelas hipóteses.

Cidadania biológica, biovalor e empreendedorismo da cura

A mobilização social em torno da polilaminina também dialoga com aquilo que Nikolas Rose chamou de cidadania biológica: formas de participação política organizadas em torno de diagnósticos, marcadores biológicos e promessas de intervenção. Nessa nova modalidade de ativismo médico, pacientes e coletivos passam a reivindicar não apenas cuidado, mas acesso a tecnologias emergentes, mesmo quando estas ainda se encontram em fase experimental. A condição de paciente torna-se, assim, plataforma de reivindicação pública, por vezes justa, mas também controversa.

Adriana Petryna mostrou como, em regimes contemporâneos de experimentação, populações vulneráveis podem ser incorporadas a circuitos de inovação biomédica que prometem inclusão terapêutica, porém, frequentemente, operam em zonas cinzentas regulatórias. A promessa de novos fármacos cria expectativas que alimentam mercados emergentes e produzem biovalor: a vida e suas possibilidades de regeneração imiscuem-se em ativos simbólicos e econômicos, mobilizados por empresas, pesquisadores e dispositivos midiáticos.

Nesse ecossistema, a esperança não é apenas um sentimento expresso por pacientes e familiares que temem os efeitos de uma condição sobre a vida e buscam alternativas plausíveis na própria ciência; ela é uma forma comodizada de biovalor entre empresas, o Estado e a sociedade. A controvérsia científica passa a operar como capital narrativo, capaz de atrair atenção, financiamento e legitimidade pública, mesmo que, para isso, a ciência possa ser colocada de lado. O risco é que a crítica metodológica — elemento constitutivo da boa ciência — seja reinterpretada como entrave ao progresso ou insensibilidade ao sofrimento.

O fantasma recente da fosfoetanolamina

A memória recente da fosfoetanolamina no Brasil oferece um contraponto pedagógico. Alçada à condição de “pílula do câncer” antes de qualquer comprovação clínica robusta, a substância mobilizou pacientes, parlamentares e tribunais em um curto-circuito entre ciência, política e comoção social. O desfecho, marcado pela demonstração da ausência de eficácia, produziu frustração coletiva e uma crise de confiança na mediação científica.

O paralelo não implica acusar a pesquisa em torno da polilaminina de fraude científica. Trata-se, antes, de reconhecer que o percurso entre pesquisa promissora e terapia comprovada é longo, incerto e, muitas vezes, frustrante. O problema sociológico não está na existência da controvérsia, mas na sua conversão em espetáculo terapêutico antes que os critérios mínimos de validação tenham sido cumpridos.

O lugar incômodo do ceticismo

Em um cenário marcado pela aceleração do tempo científico e pela visibilidade instantânea de descobertas preliminares, o ceticismo passou a ocupar um lugar incômodo. A prudência metodológica é frequentemente percebida como frieza; a recusa em prescrever terapias experimentais, como indiferença à dor. No entanto, a história da medicina é pródiga em promessas que não se confirmaram — e, em alguns casos, produziram danos significativos quando adotadas de forma prematura.

Talvez o desafio mais difícil seja sustentar publicamente a legitimidade da espera. Reconhecer os limites do que pode ser prometido não é negar a importância da pesquisa, mas afirmar a responsabilidade ética de não converter hipóteses em curas. Nesse novo registro da esperança, perguntar “há ainda ceticismo?” não é cinismo, mas um exercício sociológico profícuo com a própria ideia de ciência — e com aqueles que, legitimamente, depositam nela suas expectativas de futuro.

 

 

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