Colecionar, navegar, adoecer: ciência, império e as origens esquecidas do Antropoceno
João Paulo Gugliotti.
Inventários do mundo
Nos séculos XVII e XVIII, os gabinetes de curiosidades europeus funcionavam como pequenas cosmologias privadas. Conchas, fósseis, instrumentos cirúrgicos, penas, mapas e restos orgânicos conviviam em estantes que pretendiam abarcar o mundo conhecido — e, sobretudo, o mundo recém-descoberto. Não eram museus no sentido moderno, mas espaços de ordenação simbólica: ali, o natural e o humano eram traduzidos em objetos, retirados de seus contextos e reinscritos em uma gramática europeia de saber.
Esses gabinetes não existiriam sem a expansão marítima e colonial. Cada espécime carregava consigo uma travessia, uma rota comercial, um encontro desigual. A curiosidade científica era inseparável do poder imperial: coletar era governar à distância.
A ave que não voltou
Foi nesse regime de coleta e classificação que a Grande Alca entrou para a história natural europeia. Ave marinha do Atlântico Norte, incapaz de voar, ela era abundante o suficiente para parecer inesgotável. Durante séculos, foi caçada por populações locais para alimentação. No século XVIII, porém, passou a ser perseguida também como objeto científico e mercadoria: suas penas alimentavam mercados, seus corpos abasteciam museus e coleções privadas.
Gísli Pálsson mostra que o desaparecimento da Grande Alca não foi imediatamente reconhecido como extinção. Quando os naturalistas britânicos John Wolley e Alfred Newton viajaram à Islândia, em 1858, ainda esperavam encontrar indivíduos vivos. Encontraram apenas ossos, relatos e memórias. A ausência foi, a princípio, interpretada como deslocamento — nunca como aniquilação definitiva. A ideia de que uma espécie pudesse desaparecer por ação humana ainda estava sendo elaborada.
É nesse hiato conceitual que a história da Grande Alca se torna fundadora. A ciência do século XIX começou ali a aprender que a natureza tinha limites, que a exploração acumulativa podia produzir perdas irreversíveis e que essas perdas exigiam uma nova linguagem moral. A extinção deixou de ser um acidente geológico distante para tornar-se um problema histórico.
Oceanos como corredores
Enquanto aves desapareciam de ilhas remotas, os oceanos se consolidavam como corredores centrais do império. No século XIX, o mar deixou de ser apenas espaço de travessia para tornar-se espaço de observação sistemática. Navios mercantes e militares britânicos transformaram-se em ambientes de experimentação médica, disciplina sanitária e vigilância dos corpos.
A história da medicina marítima, tal como reconstruída por Manikarnika Dutta, revela esse deslocamento. Marinheiros passaram a ser vistos simultaneamente como força produtiva essencial e como ameaça epidemiológica. O cólera, em especial, reorganizou o olhar médico sobre o mar, os portos e os corpos em trânsito.
Dutta recupera relatos vívidos dessa experiência. Em um diário de bordo de 1854, o comandante Charles Forbes descreve o momento em que contrai cólera durante uma viagem imperial:
“À meia-noite acordo com dores lancinantes e aterradoras; resisto até as duas da manhã, quando começo a vomitar e a ter evacuações intensas; mando chamar o cirurgião… ele diz que estou com cólera, fico contraído por cãibras, completamente frio e vomitando repetidas vezes… o dia passa tomado por pensamentos sobre a incerteza da vida e quão rapidamente somos ceifados e desaparecemos.”
A cena é reveladora. O navio, símbolo máximo do poder imperial, torna-se subitamente um espaço de vulnerabilidade radical. O corpo do comandante — branco, europeu, agente do império — experimenta o colapso fisiológico em pleno oceano. A medicina marítima nasce desse confronto direto com a precariedade.
Navios como laboratórios
Esses episódios transformaram os navios em verdadeiros laboratórios móveis. Cirurgiões navais improvisavam enfermarias, testavam tratamentos, registravam sintomas e adaptavam protocolos às condições extremas do alto-mar. A escassez de recursos forçava a inovação. O corpo do marinheiro tornava-se objeto de observação contínua, e a higiene, uma tecnologia de governo.
Dutta mostra que, ao longo do século XIX, os navios foram fundamentais para a transição entre teorias miasmáticas e concepções contagionistas. O controle da água, da ventilação, da alimentação e do descarte de excretas tornou-se central. A medicina moderna não nasceu apenas nos hospitais metropolitanos, mas também nos porões quentes, úmidos e superlotados das embarcações imperiais.
Portos, medo e disciplina
Nos portos coloniais, como Calcutá, essas ansiedades se intensificavam. A cidade passou a ser descrita em relatórios médicos como um “espaço patológico”, um epicentro natural do cólera. Reformas sanitárias, quarentenas e intervenções urbanas foram justificadas menos pela preocupação com a população local do que pela necessidade de proteger o comércio, os marinheiros europeus e a continuidade do império. Os marinheiros eram, nesse contexto, símbolos do poder colonial expresso pela Inglaterra – e não podiam sucumbir, por óbvio, ou evidenciar adoecimento e decaimento. Um exército sadio simulava uma nação poderosa.
A saúde, nesse contexto, tornou-se uma questão estratégica. O medo da doença legitimou formas precoces de vigilância transnacional, antecipando aquilo que no século XX seria institucionalizado como Saúde Internacional.
Do império ao planeta
Ao final do século XIX, duas transformações estavam em curso. De um lado, a ciência natural havia aprendido que espécies podiam desaparecer definitivamente, abrindo caminho para uma consciência ambiental incipiente – a que, no presente, chamamos de Antropoceno. De outro, a medicina havia aprendido a pensar a circulação de doenças em escala global, articulando corpos, rotas, climas e infraestruturas – abrindo caminho para a Saúde Internacional como ramo internacionalista da medicina e epidemiologia no início do século XX.
No século XX, essas duas linhagens — a ecológica e a sanitária — se encontrariam sob o signo da industrialização e, mais tarde, da Saúde Global. Hoje, quando falamos em colapso ambiental, pandemias e interdependência planetária, retomamos problemas que começaram muito antes de receberem seus nomes atuais. Revisitar os gabinetes de curiosidades, a extinção da Grande Alca e a medicina marítima imperial é reconhecer que o Antropoceno não nasceu de um único evento, mas de uma longa série de atos, quais sejam, coletar, explorar, classificar e navegar.