Intimidades em ciclo delicado

João Paulo Gugliotti.

 

A máquina de lavar chegou como chegam os artefatos do futuro: silenciosa, em tom metálico, prometendo eficiência, mas exigindo um ritual de iniciação. Ela não funciona sem conexão. Antes de girar, precisa saber quem sou — ou, ao menos, qual é a minha senha de Wi-Fi. Estou na cozinha, curvado sobre o celular, conectando a máquina à internet como quem apresenta dois estranhos. Descubro, com um misto de orgulho e absurdo, que a máquina toca música do Spotify. Penso na roupa girando ao som de algo que um algoritmo escolheu para mim e sinto que há aí uma intimidade forçada, quase indecente.

Não se trata apenas de lavar roupas. Trata-se de ingressar num sistema. A máquina exige um aplicativo, aceita atualizações, promete diagnósticos preventivos. Ela sabe quando está sobrecarregada, quando algo falha, quando um ciclo pode ser otimizado. A promessa é de cuidado — com o tecido, com o tempo, com a energia. Mas há também uma pedagogia silenciosa em curso: aprender a viver cercado por objetos que solicitam atenção, autorização e dados em troca de conforto.

Essa cena doméstica parece cumprir, com atraso e ironia, uma antiga promessa da Guerra Fria: a da casa altamente tecnológica, limpa, eficiente, automática — vitrine do progresso ocidental. As feiras mundiais exibiam cozinhas do futuro enquanto, do lado de fora, acumulavam-se mísseis. O lar como campo de batalha suave, onde a modernidade se infiltrava não por tanques, mas por eletrodomésticos. A máquina de lavar, a geladeira, o fogão elétrico não eram apenas utensílios; eram argumentos. Provas materiais de que o futuro havia escolhido um lado.

Mas essa promessa nunca veio sozinha. Veio acompanhada de dispositivos técnicos e bélicos, às vezes indistinguíveis: bancos de dados, produtos químicos, aço, sensores, códigos. O mesmo imaginário que organizava a lavanderia organizava a vigilância. Hoje, isso se atualiza em forma de QR codes, reconhecimento facial, termos de uso e conexões obrigatórias. A casa permanece sendo um laboratório político — só que agora distribuído em servidores distantes.

Manuel Castells chamou isso de sociedade em rede: um mundo em que o poder, a produção e a vida cotidiana se reorganizam por fluxos de informação, mais do que por lugares fixos. O que acontece na minha lavanderia já não está confinado a ela. Cada ciclo de lavagem participa, ainda que de forma mínima, de uma infraestrutura global de dados, plataformas e decisões automatizadas. A máquina não está só na cozinha – há uma nuvem pairando em algum lugar e não é de chuva! Minha máquina está, simultaneamente, aqui e nesta nuvem.

Enquanto tento fazer a máquina “reconhecer” a rede, lembro que nada aqui é realmente simples. Lavar roupas agora envolve servidores, contratos invisíveis, atualizações silenciosas. Há uma trilha de dados sendo produzida enquanto as camisetas giram. A máquina quer saber mais de mim do que minha antiga máquina jamais ousou perguntar — mas também perguntava. Ela perguntava com barulho, com esforço, com tempo. Esta pergunta com eficiência, silêncio e interface amigável.

Ilustração vintage de um anúncio de telefone.

Bell Telephone, 1960.

Estados Unidos.

Nancy Baym, ao escrever sobre conexões pessoais na era digital, insiste que tecnologia não substitui relações: ela as reconfigura. Não há oposição clara entre o humano e o técnico, entre intimidade e mediação. O que existe é uma vida social progressivamente atravessada por dispositivos que participam da construção do vínculo, do cuidado e da confiança. A máquina de lavar conectada não elimina o cotidiano doméstico; ela o reinscreve numa ecologia de plataformas, notificações e expectativas de resposta.

Há algo de curioso — e um pouco perturbador — no fato de que tantos dispositivos que prometem facilitar a vida doméstica também produzem novas formas de vigilância. Não apenas estatal ou corporativa, mas íntima. A máquina monitora meu consumo de água, meus horários, meus hábitos. Ela me ensina, gentilmente, a ser um usuário melhor. A saúde entra aqui não como ausência de doença, mas como otimização contínua: economia de energia, redução de esforço, prevenção de falhas. Um cuidado automatizado, sem toque, sem conversa.

Scott McQuire chamaria isso de espaço relacional: um ambiente em que a experiência não é definida apenas pela arquitetura física, mas pela sobreposição de mídias, fluxos e interações. A cozinha deixa de ser apenas um espaço funcional; torna-se um nó numa rede de relações técnicas, econômicas e simbólicas. O espaço doméstico já não é privado no sentido clássico. Ele é poroso, monitorado, interdependente.

“Nesta cozinha, você pode assar um bolo em três minutos. E nesta cozinha, a louça é raspada, lavada e seca eletronicamente. Ela até se guarda sozinha.”

Cozinha Milagrosa da RCA Whirlpool de 1957.

Estados Unidos.

Quando finalmente a conexão se estabelece, a máquina emite um som de confirmação — quase alegre. Está pronta para trabalhar. E para cantar. Imagino a roupa girando ao som de uma playlist gerada por um algoritmo que sabe algo sobre mim, mesmo sem nunca ter me visto. A música ecoa pela casa, misturando-se ao ruído baixo da centrifugação. Tudo funciona. Tudo está integrado.

Penso então que talvez o futuro doméstico nunca tenha sido apenas sobre conforto. Sempre foi sobre governar a vida cotidiana por meios técnicos, suaves, aparentemente neutros. A Guerra Fria acabou, mas sua pedagogia material persiste. O futuro prometido continua girando, em ciclos regulares, dentro da vida privada — limpo, eficiente, conectado. E, como toda boa máquina, observa enquanto trabalha. Olavo Bilac, em sua emblemática crônica de início do século XX, dizia que havia ritmo e alegria, também alguma musicalidade, nos sons das picaretas – aquelas, regeneradoras, de Pereira Passos, na mais aterradora “reforma” da cidade do Rio de Janeiro. Há algo dessa tragédia no presente, mas não podemos chamar de regeneração, embora, mais uma vez, seja em nome da higiene, do bom gosto e do progresso.

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