Como a tuberculose inventou a magreza como ideal de beleza feminina
João Paulo Gugliotti.
Durante boa parte do século XIX, adoecer de tuberculose não significava apenas enfrentar uma enfermidade pulmonar grave. Antes que o bacilo de Koch ganhasse nome e estatuto científico, a doença existia sobretudo como uma narrativa — uma história contada pelo corpo, lentamente, em sinais visíveis de desgaste e refinamento. Emagrecer, empalidecer, tossir sangue eram eventos médicos, mas também atos simbólicos, lidos como indícios de uma vida interior intensa demais para ser contida pela matéria.
Havia, nesse imaginário, algo de paradoxalmente elogioso. A tuberculose parecia poupar seus doentes da brutalidade das grandes epidemias do período. Não deformava o rosto como a varíola, nem matava com a violência súbita do cólera. Ao contrário, consumia com delicadeza. O corpo se afinava, os olhos ganhavam brilho febril, as faces adquiriram um rubor que lembrava emoção permanente. Sofrer, nesse contexto, não era apenas padecer — era expressar.
“Dropsy Courting Consumption”.
Color etching by T. Rowlandson.
Wellcome Collection.
Susan Sontag observou que o romantismo elevou a tuberculose à condição de metáfora da sensibilidade e do gênio. O doente tísico passou a ser representado como alguém excessivamente permeável ao mundo, dotado de uma vitalidade espiritual que o corpo já não conseguia sustentar. A doença funcionava como uma espécie de taxa cobrada pela profundidade moral. O sofrimento tornava-se prova de autenticidade.
Esse modelo encontrou no corpo feminino seu território mais fértil. Como mostra a historiadora Carolyn A. Day, entre o final do século XVIII e meados do XIX, consolidou-se aquilo que ela chama de consumptive chic: uma estética que transformava os sinais clínicos da tuberculose em atributos desejáveis de beleza. A magreza, a palidez, as clavículas aparentes e a languidez corporal passaram a compor o ideal de feminilidade respeitável nas elites urbanas europeias.
A magreza, nesse cenário, não era lida como carência, mas como elevação. Um corpo delgado sugeria contenção moral, delicadeza intelectual, afastamento dos excessos da vida material. Quando a doença não estava presente, seus efeitos eram cuidadosamente imitados. Cosméticos clareavam a pele; vestidos de tecidos diáfanos deixavam à mostra ossos e articulações; corsets comprimiam o tronco, produzindo uma postura arqueada que lembrava a dos corpos adoecidos. Vestir-se bem era, em certo sentido, parecer levemente doente.
“The Three Robinson Sisters”.
George Theodore Berthon, 1846.
Art Gallery of Ontario.
A famosa observação de Charlotte Brontë — “consumption is a flattering malady” — escrita em 1849 a propósito da enfermidade da irmã Anne, condensa essa lógica com desconcertante clareza. Anne morreria poucos meses depois, aos vinte e nove anos; Emily, um ano antes, também vítima da doença. Ainda assim, a tuberculose podia ser descrita como “lisonjeira”. A frase não nega a gravidade da enfermidade; revela, antes, a capacidade cultural de converter sofrimento em distinção.
A literatura e a ópera perpetuaram esse imaginário. Heroínas como Violetta Valéry, de La Traviata, e Mimì, de La Bohème, morrem jovens, belas e moralmente puras, consumidas por uma doença que parece legitimar sua sensibilidade extrema. Elas não sucumbem apenas à infecção, mas a uma forma de excesso emocional. Morrem de amor, de ar, de delicadeza — nunca de miséria.
Essa estetização do adoecimento cumpria uma função moral precisa. Em um século marcado por desigualdades profundas e por epidemias devastadoras, a tuberculose oferecia uma morte socialmente aceitável. Seu curso lento permitia transformar a perda em narrativa, o corpo em alegoria. Ao romantizar a doença, tornava-se possível afastar dela qualquer explicação estrutural. O sofrimento deixava de ser político para tornar-se pessoal.
Esse equilíbrio frágil começou a se desfazer na segunda metade do século XIX. As reformas sanitárias, a urbanização acelerada e, sobretudo, a bacteriologia redesenharam o significado da tuberculose. O que antes era interpretado como expressão da interioridade passou a ser entendido como produto de condições materiais específicas: habitação precária, trabalho extenuante, má alimentação. O sangue, outrora metáfora da alma, converteu-se em sinal de contágio.
A moda acompanhou essa mudança de sensibilidade. Vestidos leves e caudas longas passaram a ser vistos como insalubres; a fragilidade deu lugar à valorização da robustez e da vitalidade. A tuberculose perdeu seu glamour e foi progressivamente associada à pobreza e à desordem social. O corpo magro deixou de ser ideal e passou a ser suspeito.
A história da tuberculose revela, assim, algo mais amplo do que a trajetória de uma doença. Ela mostra como os ideais corporais são produzidos na intersecção entre ciência, moral e cultura. A magreza feminina, tantas vezes tratada como escolha individual ou preferência estética, nasceu, em parte, da intimidade histórica entre patologia e virtude.
Talvez a tuberculose tenha sido a última doença a permitir essa conciliação entre beleza e morte. A partir dela, o corpo doente deixaria de ser metáfora da alma para tornar-se objeto de vigilância. E o que antes era consumação interior passaria a ser risco público — inaugurando uma nova era, menos romântica, mais desconfiada, em que o corpo seria observado não por sua delicadeza, mas por sua capacidade de contaminar.