Mães em pré-crime: a vida antes do ato
João Paulo Gugliotti.
Há um ponto preciso, na experiência contemporânea da maternidade, em que o futuro deixa de ser uma abstração e passa a operar como um regime de governo. Não se trata mais de imaginar o que uma criança poderá se tornar, mas de administrar, desde já, os riscos que ela poderá vir a carregar. A matéria de Sophie Gilbert, publicada na The Atlantic, ao narrar uma gravidez vivida em meio à pandemia de Covid-19, oferece uma entrada privilegiada para compreender esse deslocamento, ao mostrar como a alimentação — um gesto cotidiano e aparentemente banal — se converte em um dispositivo central de antecipação, responsabilidade e vigilância.
Grávida de gêmeos nos primeiros meses de 2020, Gilbert descreve suas idas semanais a um supermercado nova-iorquino como cenas atravessadas por escassez, medo e cálculo. Comprar comida, naquele contexto, era simultaneamente um esforço de sobrevivência imediata e um investimento no futuro. O presente parecia frágil demais para oferecer garantias; o futuro, por sua vez, surgia como uma promessa que exigia constante proteção. Aplicativos de gestação, guias nutricionais e discursos científicos reiteravam que cada escolha alimentar poderia produzir efeitos duradouros sobre os corpos e os hábitos das crianças ainda não nascidas. Comer deixava de ser um ato situado no agora e passava a ser inscrito em uma cadeia causal ampliada, projetada ao longo de décadas.
Essa temporalidade antecipatória não é nova, mas sua intensificação recente revela algo fundamental sobre as formas contemporâneas de governar a vida. Assim como no filme Minority Report, de Steven Spielberg, em que o sistema de pre-crime promete eliminar assassinatos antes que eles aconteçam, o campo da saúde pública e da nutrição tem operado cada vez mais por meio de uma lógica que desloca o risco para o futuro e, ao fazê-lo, reinscreve a responsabilidade no presente. No filme, a punição antecede o ato; na política do bem-estar, a responsabilização antecede qualquer adoecimento efetivo.
O corpo materno ocupa, nesse arranjo, uma posição estratégica. Ao longo das últimas décadas, a consolidação de campos como o das Origens Desenvolvimentais da Saúde e da Doença (DOHaD) contribuiu para redefinir a gravidez como um período crítico, no qual exposições ambientais, alimentares e emocionais passariam a “programar” biologicamente trajetórias futuras de saúde. A alimentação durante a gestação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma prática cultural ou relacional e passa a ser tratada como um vetor de risco populacional, capaz de explicar desde padrões alimentares até doenças crônicas, transtornos mentais e desigualdades intergeracionais.
O efeito político desse deslocamento é sutil, mas profundo. Ao mesmo tempo em que se ampliam as evidências sobre o papel de processos estruturais — industrialização da alimentação, desigualdade social, insegurança alimentar, poder corporativo —, observa-se um movimento inverso no plano da responsabilização, que retorna ao indivíduo e, mais especificamente, à mãe. Gilbert mostra como essa lógica atravessa fronteiras ideológicas, aproximando críticas progressistas à indústria alimentícia de discursos conservadores sobre família, cuidado e responsabilidade moral. O ponto de convergência não é o Estado nem o mercado, mas a mulher que gesta.
Historicamente, as transformações do pós-guerra deslocaram a produção de alimentos do espaço doméstico para as grandes corporações, ao mesmo tempo em que incorporaram as mulheres de forma massiva ao mercado de trabalho. O que se observa hoje, no entanto, é uma reconfiguração desse processo: os efeitos cumulativos da alimentação industrializada retornam ao espaço doméstico na forma de culpa individualizada. Problemas como a obesidade infantil, por exemplo, são cada vez menos explicados por políticas agrícolas, marketing agressivo ou desigualdades sociais e cada vez mais por escolhas maternas consideradas inadequadas, insuficientemente informadas ou moralmente falhas.
Nesse sentido, a mãe contemporânea ocupa uma posição análoga à do sujeito suspeito em Minority Report: ela não é julgada pelo que fez, mas pelo que poderia ter evitado. O risco não precisa se concretizar para produzir efeitos políticos; basta que ele seja plausível, estatisticamente projetável, cientificamente enunciável. A vigilância, por sua vez, não se exerce por meio da coerção direta, mas por dispositivos cotidianos — aplicativos, campanhas educativas, recomendações técnicas — que operam pela internalização do controle e pela antecipação da culpa.
O futuro, assim, deixa de ser um horizonte aberto e passa a funcionar como critério de julgamento do presente. Ao prometer proteger a saúde das próximas gerações, esse modelo produz uma forma específica de maternidade, permanentemente orientada à prevenção, à autovigilância e à gestão do risco. Trata-se menos de garantir cuidado do que de evitar desvios, menos de promover bem-estar do que de neutralizar ameaças potenciais.
A leitura intertextual entre a narrativa de Gilbert e a ficção de Minority Report permite, portanto, compreender como a política contemporânea do risco transforma a maternidade em um espaço privilegiado de governo da vida. Ao antecipar o futuro, desloca-se a atenção das condições estruturais para as condutas individuais; ao individualizar o risco, obscurecem-se as responsabilidades coletivas; ao moralizar a prevenção, produz-se um regime no qual a mãe é chamada a responder por um futuro que ainda não existe, mas que já pesa, de forma concreta, sobre o presente.