Como me tornei um teórico das mães?

João Paulo Gugliotti.

 

Quando me perguntam — e acontece com mais frequência do que eu poderia antecipar — como um sociólogo formado no debate sobre AIDS, risco e sexualidade acabou escrevendo sobre mães, costumo hesitar. Não porque a resposta não exista, mas porque ela se deu como acontecem certos deslocamentos silenciosos na vida acadêmica: por acumulação, por desvio, por acaso — e, sobretudo, por arquivo.

A história talvez comece em 2019, em Nova York, quando recebi uma bolsa da FAPESP para um período de doutorado sanduíche em Harvard, no Departamento de História da Ciência, sob supervisão da filósofa Sarah S. Richardson. Eu tinha ido atrás de outra coisa. Buscava histórias de mães no contexto da epidemia de HIV/AIDS, procurando compreender como elas haviam ocupado — ou sido empurradas para — determinadas posições morais, epistemológicas e afetivas naquele período. Parecia-me evidente que a literatura sobre AIDS havia, por décadas, priorizado homens, sexualidades e circunstâncias urbanas específicas, relegando às mulheres uma aparição lateral, quase sempre marcada pelo risco ou pela negligência.

Foi nos arquivos de Florence Rush, feminista e assistente social, que encontrei o primeiro desvio decisivo. Entre caixas de documentos de campanhas, atas de reuniões e cartas de mães cujos filhos viviam com AIDS, emergia uma constelação de histórias que não se encaixava facilmente nos enquadramentos epidemiológicos ou biomédicos que eu conhecia. Enquanto a tese que eu desenvolvia demonstrava como a epidemia de AIDS havia inaugurado — ou, ao menos, acelerado — um regime moral da causalidade nas ciências biomédicas, os movimentos sociais e a sociedade civil produziam, simultaneamente, outras gramáticas: formas de cuidado, de denúncia, de reivindicação de autoridade cultural. Esse contraste tornou-se, desde então, central em tudo o que escrevi.

O artigo publicado em 2024, com meu orientador Richard Miskolci, na Nature Humanities & Social Sciences Communications, foi o marco dessa primeira inflexão. Em The Mothers: contesting health-illness status and cultural authority in the age of AIDS, analisamos em profundidade o grupo nova-iorquino de mães cuidadoras e os arquivos deixados por Rush. Ali compreendi que a pergunta pela “mãe” não podia ser feita apenas como papel social: tratava-se de uma posição política, de uma plataforma de luta, de um lugar de saber.

Enquanto escrevia sobre aquelas mães, meu repertório teórico também se expandia. Lembro-me do dia em que conheci Arthur Kleinman no lançamento de The Soul of Care. Eu havia lido o manuscrito poucos meses antes, impressionado com a forma como Kleinman — figura tão central na antropologia médica — narrava o cuidado de sua esposa, Joan. Sua história pessoal abria uma fenda: mostrava que o cuidado não é apenas categoria analítica, mas também uma vulnerabilidade incorporada, uma ética vivida. Esses encontros, comuns apenas no ambiente quase mítico de Harvard, foram sedimentando em mim a sensação de que estudar mães era, também, estudar as condições morais de reprodução do mundo social.

Minha supervisora, Sarah S. Richardson, caminhava então para concluir The Maternal Imprint, um livro sobre a ciência controversa dos efeitos materno-fetais. Embora eu não estudasse epigenética diretamente, suas reflexões sobre o papel enigmático atribuído às mulheres nas pesquisas epidemiológicas — ora vetores de risco, ora responsáveis pelo destino biológico de gerações — tornaram-se uma lente para reler tudo aquilo que eu encontrava. A tese começava a assumir uma forma que eu não havia previsto. E talvez seja isso que signifique, afinal, tornar-se um teórico das mães: perceber que a maternidade, muito mais do que uma instituição, é uma tecnologia moral.

Voltei ao Brasil em 2020, ainda sob o impacto da pandemia de Covid-19, e defendi minha tese no ano seguinte. A transição para a Saúde Coletiva aconteceu quase naturalmente, quando comecei a trabalhar com Lilia Blima Schraiber — uma das vozes mais influentes no país sobre violência, gênero e saúde. Nosso novo projeto recebeu financiamento da FAPESP, e, entre 2023 e 2024, fui para o Department of Global Health & Social Medicine do King’s College London estudar mães ativistas britânicas. Queria entender se — e como — elas haviam se organizado nas décadas de 1980 e 1990, à semelhança das norte-americanas.

As mães, porém, apareceram de outra forma. Não nos arquivos militantes, mas nas campanhas de saúde pública britânicas: cartazes, panfletos, anúncios de TV que convocavam a figura materna como guardiã moral da prevenção. Desses materiais nasceu outro desdobramento: o artigo Preventing AIDS, Producing Mothers: a sociological reading of HIV/AIDS posters aimed at women in 1980s and 1990s, publicado em 2025 na BMC Archives of Public Health, onde analisamos, a partir dos acervos da Women’s Library (LSE) e do Bishopsgate Institute, como a imagem da mãe se tornou um dispositivo central na pedagogia preventiva da AIDS.

A entrada na epidemiologia dos estudos de coorte, curiosamente, veio por uma conversa inesperada. Em 2024, após apresentar dados preliminares do estudo de Londres em uma reunião científica do departamento, fui abordado por Alicia Matijasevich — referência incontornável das coortes brasileiras, sobretudo a de Pelotas de 2004. Alicia disse, de forma direta: “João, nós precisamos conversar.” Havia, naquela frase, algo entre convocação e confissão. Ela continuou: “Nós, na epidemiologia, temos culpado sistematicamente as mães ao ignorar o contexto mais amplo. Eu vejo isso nos meus próprios estudos. Eu mesma o fiz.”

Aquilo me marcou profundamente. Ver uma pesquisadora de sua trajetória reconhecer um padrão estrutural — e desejar transformá-lo — foi decisivo para que eu retomasse, com outros olhos, o debate inaugurado por Richardson e pelos estudos críticos de DOHaD e epigenética.

Desse encontro nasceu nosso projeto atual, O mais profundo é o útero: DOHAD, epigenética e o gênero da saúde pública no Brasil. Trata-se de um esforço de compreender como a figura materna tem sido mobilizada na literatura epidemiológica brasileira e na imprensa profissional, entre 2010 e 2025, para explicar desfechos que vão desde a depressão perinatal ao peso ao nascer, do trabalho materno ao uso de álcool e drogas. O objetivo é revelar tensões, continuidades e contradições de um maternalismo científico que, embora sofisticado, ainda tende a individualizar condutas e a obscurecer determinantes estruturais — pobreza, racismo, violência, insegurança alimentar, condições de trabalho.

Se hoje me perguntam “como me tornei um teórico das mães?”, talvez a resposta seja simples, embora não menos complicada: eu fui sendo conduzido por elas. Pelas mães do arquivo, que transformaram estigma em política. Pelas mães das campanhas, recrutadas como alegorias de responsabilidade social. Pelas mães da epidemiologia, convertidas, muitas vezes de forma solitária, em variáveis de risco. Pelas mães que estavam nos bastidores da história da AIDS e que, por caminhos complexos, se tornaram vozes para seus filhos que já não estavam mais vivos.

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